Professora lidera projeto para construir pensadoras: “Forma de poder”

Escola As Pensadoras cresce e ingressa no mercado editorial, com o objetivo de dar mais visibilidade a intelectuais femininas

atualizado 25/06/2021 20:59

As Pensadoras: escola, comunidade e editoraAs Pensadoras/Divulgação

Sim, lugar de mulher é na ciência – e na filosofia, nas universidades, nos colégios e onde mais elas quiserem. Foi assim que surgiu o projeto As Pensadoras, uma escola de formação estruturada virtualmente por mulheres intelectuais, com o objetivo de fornecer formação feminista e estudar o pensamento delas.

Rita de Cássia Fraga Machado, de 39 anos, é a idealizadora e coordenadora-geral do projeto. Professora de filosofia na Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e vice-coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Educação da instituição, ela conta que a escola nasceu de um curso com o mesmo nome.

Chamava-se As Pensadoras – Primeira Edição, e contou com 3 mil inscrições. A ideia era oferecer apoio a mulheres indígenas e ribeirinhas em situação de vulnerabilidade do estado do Amazonas. Então, veio a Covid-19.

As universidades brasileiras fecharam por causa da pandemia do novo coronavírus. O valor recebido com as inscrições foi revertido em cestas de alimentos e higiene. “Nós nascemos de um movimento muito solidário. Isso é muito bonito de contar”, diz Machado.

Bonito e complicado. “No início, foi difícil, porque somos professoras, não comunicadoras. Mas a gente precisava fazer isso para se manter conectada”, conta a professora, referindo-se ao trabalho de espalhar a notícia de que a escola começaria a existir.

Mesmo diante dos obstáculos com a comunicação e a tecnologia, a experiência completamente on-line permitiu que a entidade se firmasse como escola de formação. As professoras, acostumadas a dar aula para 15 alunos, passaram a ensinar em salas virtuais com mais de 200 mulheres.

0

“A gente alcança todos os estados brasileiros, além de outros países, como Argentina e México. Se não fosse dessa forma, a gente não conseguiria chegar onde chegamos e alcançar o que alcançamos. Foi, e é, grandioso”, afirma Rita.

O cerne do projeto, que é ensinar e aprender a formação de um pensamento crítico, nunca foi deixado de lado, até na hora de encarar a internet. “A internet não é um espaço democrático, mas o nosso acesso a esse território permite que a gente alcance mais mulheres”, aponta a professora.

A editora As Pensadoras

Com cursos, fóruns e palestras oferecidos, o projeto começou a se transformar. “Começamos como escola. Depois, criamos uma comunidade (importante para continuar vinculada). E, então, uma editora, para a gente se publicar”, conta Rita Machado.

Para ela, conseguir fazer com que mulheres lancem obras “é uma forma de poder”, já que, segundo a professora, as editoras não costumam dar espaço para esse público.

A editora As Pensadoras nasce, então, a partir de questionamentos sobre o mercado editorial. “Como uma editora publica vários volumes sobre pensadores e não tem uma mulher aí? Tem um problema nisso”, avalia Machado.

A proposta editorial, então, é começar a publicar pensadoras deixadas na invisibilidade e que estiveram no campo intelectual desde pensadores como Aristóteles e Platão. Além disso, a empresa também procura promover pensadoras que ainda não têm livros no mercado atualmente.

“Mulheres intelectuais negras e indígenas, que sempre estiveram pesquisando e publicando, não são visibilizadas pela academia machista e patriarcal. Ainda mais dentro de um mercado editorial que escolhe não publicar essas mulheres”, aponta Rita.

A primeira obra a ser lançada pela editora recebe o título de As Pensadoras e trará o trabalho de intelectuais de várias áreas. Com isso, o objetivo é atingir mulheres em inúmeros espaços sociais e acadêmicos, defendendo o fato de as autoras serem interdisciplinares.

A editora também conta com o objetivo de diminuir essa desigualdade de gênero, fazendo com que as mulheres sejam cada vez mais visibilizadas. “Apesar de estarmos conquistando espaço, o mercado editorial ainda é muito devagar e muito tradicional”, afirma Machado.

O futuro do projeto

O futuro da escola e da editora As Pensadoras, de acordo com a professora, é incerto. Como o projeto é financiado pelas próprias participantes, os próximos passos também são definidos em conjunto.

Mesmo contando que as estruturas – patriarcais, empresariais, sociais, econômicas – dificultam os objetivos do trabalho, Rita Machado não vê a escola chegando ao fim. “Eu não sei como nem o que vou fazer, mas, enquanto tiver uma mulher caminhando comigo, vou continuar”, afirma a idealizadora.

Apesar de não saber o que esperar, a professora sabe que, agora, o trabalho é romper com a desigualdade de gênero, principalmente no contexto atual.

“Em um contexto com um governo conservador, misógino e machista, essa desigualdade se aprofunda de uma forma gritante. A gente está nadando contra a maré. É muito cansativo. Mas é um projeto que se tornou um lugar de exílio, dentro de um contexto tão agressivo para as mulheres.”

Rita de Cássia conta que o projeto tem sido uma experiência de mudança em sua vida e na vida de outras intelectuais brasileiras. O objetivo é continuar permitindo o acesso a mais acadêmicas femininas para uma mudança permanente e positiva para as mulheres pesquisadoras.

Mais lidas
Últimas notícias