Prefeitura do Rio inspeciona Casa do Índio após denúncia do Metrópoles

Instituição que abriga índios com deficiência e excluídos de suas tribos está abandonada. Força-tarefa da Prefeitura do Rio levará serviços

atualizado 23/02/2021 10:30

Fiscais da Prefeitura do Rio na primeira Casa do Índio do BrasilDivulgação Prefeitura do Rio

Rio de Janeiro – Após reportagem do Metrópoles, fiscais do Instituto Municipal de Vigilância Sanitária (Ivisa) do Rio de Janeiro inspecionaram o imóvel onde funciona a Casa do Índio, a primeira criada para oferecer assistência a índios excluídos de suas tribos e por terem alguma deficiência ou má-formação. Localizada na Ilha do Governador, na zona norte da cidade, a instituição não recebe apoio de qualquer órgão de proteção ao povo indígena, como a Fundação Nacional do Índio (Funai), ou de apoio à Saúde e Assistência Social.

A partir das denúncias do Metrópoles, o Ivisa informou que realizou, na manhã da última sexta-feira (19/2), uma inspeção e se constatou a necessidade de realizar uma força-tarefa no local com outros órgãos da Prefeitura do Rio para prestar assistência aos moradores do local. Também foram apontadas quais medidas de proteção se fazem necessárias, com prudência e cuidados, para preservar a privacidade e integridade dos índios. A equipe de Vigilância Sanitária, porém, ainda não definiu a data para essa força-tarefa na Casa do Índio da Ilha do Governador.

Na reportagem, Eunice Cariry, de 85 anos, há mais de 50 administrando a casa, contou que perdeu todos os apoios e recursos que recebia do Governo Federal e que o local precisa de ajuda. A Casa do Índio da Ilha do Governador é a primeira do Brasil a ser reconhecida por receber e cuidar dos índios deficientes excluídos de suas tribos. O espaço, um amplo salão, está todo ocupado por doações que nunca foram abertas, móveis, brinquedos, roupas velhas e camas, onde alguns pacientes se alimentam ou têm momentos de “convívio social”. Abafado, o local está com os janelões fechados e uma série de objetos de lembranças e documentos da luta do povo indígena.

Durante a inspeção da Vigilância Sanitária, os técnicos constataram os problemas mostrados e denunciados pelo Metrópoles, como a quantidade de doações não abertas, comida, remédios, móveis e brinquedos acumulados no mesmo espaço onde dormem os 13 moradores do local. Também foram identificadas falhas na prestação de serviços de saúde e nos protocolos sanitários estabelecidos para o cuidado durante a pandemia do novo coronavírus.

A Funai também procurou o Metrópoles e reforçou que não tem qualquer responsabilidade sobre a Casa do Índio. No entanto, também não explicou o motivo de os moradores do local não terem assistência do órgão, que tem como missão zelar pela qualidade de vida dos povos indígenas. O Ministério da Saúde, que seria o atual responsável pelo serviço, não respondeu os questionamentos sobre o abandono do local. A Secretaria Municipal de Assistência Social também não respondeu sobre como pode contribuir para mudar a situação de abandono do espaço.

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Cápsula do tempo

Há cerca de 10 anos o local passou a ser responsabilidade da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde, que até a edição desta reportagem não respondeu aos questionamentos do Metrópoles.

Tentando se manter firme, Eunice Cariry garante que tem fôlego para seguir em frente, mas alterna momentos de esperança com a “certeza de que só querem me tirar daqui e usar a Casa do Índio para outras finalidades”.

“Podem falar mal de mim. Podem dizer que isso aqui é uma lixeira. Mas eu estou aqui há mais de 50 anos cuidando de quem ninguém cuida. Meu sonho hoje era ter uma moto e sumir. Ou, quem sabe, localizar a cápsula do tempo de Marechal Rondon e, quem sabe descobrir que ele deixou outros presentes para o povo indígena. Mas, hoje, digo que estamos aqui, fortes e de portas abertas”, garante Eunice Cariry.

A Casa do Índio

A instituição já chegou a atender mais de 600 indígenas e virou referência de lar para quem foi rejeitado pela aldeia ou não quer voltar para sua família. Mas a situação da casa é muito precária. Fundada em 1968, a Casa do Índio da Ilha foi a primeira das 40 criadas em todo o país a receber apoio da Funai. Depois, a casa ficou sob responsabilidade de diversos órgãos, mas nenhum deles, segundo Eunice, ofereceu o que, de fato, a casa precisa para funcionar.

A Constituição Federal assegura a grupos indígenas o direito à prática do infanticídio, o assassinato de bebês que nascem com algum problema grave de saúde, incluindo casos de malformações e deficiências provocadas por síndromes congênitas. Para algumas tribos, o ato é um gesto de amor, uma forma de proteger o recém-nascido.

A prática acontece em pelos menos 13 etnias indígenas do Brasil, principalmente nas tribos isoladas, como os suruwahas, ianomâmis e kamaiurás. Cada etnia tem uma crença que leva a mãe a matar o bebê recém-nascido.

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