José Sarney volta ao Maranhão e tenta retomar o poder

Ex-presidente transfere título para terra natal a fim de fortalecer clã e impedir reeleição de governador do PCdoB

atualizado

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Jefferson Rudy/Agência Senado
Imagem colorida de José Sarney falando e gesticulando com as mãos
1 de 1 Imagem colorida de José Sarney falando e gesticulando com as mãos - Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

Depois de 28 anos domiciliado eleitoralmente no Amapá, o ex-presidente José Sarney transferiu o título de eleitor de volta ao Maranhão, sua terra natal e berço político. Sarney alega motivos pessoais para o retorno, mas, segundo amigos e colaboradores, ele só fala em duas coisas: evitar o esfacelamento de seu clã e tirar a qualquer custo do Palácio dos Leões, sede do Executivo maranhense, o governador Flávio Dino (PCdoB), eleito em 2014 – após 40 anos de domínio quase ininterrupto do sarneysismo no estado.

“O que Sarney pensa é em voltar ao poder no Maranhão. Nem é tanto pelo poder em si, mas por uma maneira de dar a volta por cima, de no final não ser um homem derrotado, marginalizado”, disse o presidente da Academia Maranhense de Letras (AML), Benedito Buzar, um dos amigos mais próximos do ex-presidente. “Dino tem agido com uma agressividade terrível contra os Sarney”, completou.

Com 88 anos recém-completados, Sarney mantém diariamente um espaço em sua agenda para receber políticos locais. Três líderes de partidos da base de Dino disseram, sob anonimato, ter recebido propostas do ex-presidente para apoiar a pré-candidatura de Roseana Sarney (MDB) ao governo do estado.

Apesar da atividade política intensa, José Sarney tem colhido fracassos na tentativa de minar a ampla aliança que dá sustentação a Dino. Articulações para trazer o DEM, PP e o PRB até agora falharam. As manobras para filiar a ex-governadora ao DEM e o filho Zequinha (PV) ao PSD também fracassaram. “A falta de um cargo atrapalha”, disse Buzar.

Simbólico
A família nega que o patriarca esteja envolvido diretamente nas articulações. “Não tenho visto muito esforço dele nesse sentido”, disse o neto Adriano Sarney, deputado estadual pelo PV. Para ele, o significado do retorno de Sarney ao Maranhão é mais simbólico do que prático. “Mas meu avô sempre diz que a política só tem a porta de entrada”, afirmou Adriano.

Na terça-feira (24/3), quando fez aniversário, o ex-presidente disse a amigos que pretende sair do luxuoso apartamento avaliado em R$ 4 milhões onde mora, no bairro Ponta d’Areia, e voltar para a antiga casa da família na Praia do Calhau.

Sarney reclama que a vida em condomínio, com portarias e elevadores, dificulta os contatos políticos, ao contrário da casa avarandada do Calhau, onde o portão está sempre aberto. Segundo amigos e aliados, há muitos anos Sarney não passava tanto tempo em São Luís.

Na quarta-feira (25), o político foi para Nova York (EUA), onde deve acompanhar as cirurgias no joelho da mulher, a ex-primeira-dama dona Marly, de 85 anos. O casal viajou acompanhado de filhos e netos no jatinho particular do empresário Mauro Fecury, dono da Ceuma, uma das maiores universidades privadas do Brasil.

O próximo passo, segundo amigos, é abandonar de vez Brasília, onde mantém uma casa, para se estabelecer apenas em São Luís. O que impede é a política. A ligação de Sarney com o poder federal é, hoje, mais do que nunca, uma das principais fontes de poder do clã.

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