Bolsonaro mais que dobrou número de aglomerações em um mês de CPI

Levantamento do Metrópoles identificou ao menos 26 ocasiões em que presidente desrespeitou regras sanitárias em eventos, passeios e viagens

atualizado 29/05/2021 17:37

presidente Jair BolsonaroAlan Santos/PR

Ao longo do primeiro mês da CPI da Covid, que investiga ações e omissões do governo federal durante a pandemia de coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) promoveu ao menos 26 aglomerações. É o que mostra um levantamento feito pelo Metrópoles com base na agenda presidencial e no banco de imagens oficial do Palácio do Planalto, do período de 27 de abril a 28 de maio. 

A reportagem levou em consideração eventos abertos, realizados pela Presidência da República, viagens oficiais de Bolsonaro pelo país e dois passeios de moto. A pesquisa não levou em conta reuniões fechadas no gabinete presidencial nem eventos realizados por terceiros, como, por exemplo, cerimônias organizadas pelas Forças Armadas.

O Metrópoles identificou que, desde a instalação da CPI, em 27 de abril, o chefe do Executivo federal fez cinco cerimônias no Palácio do Planalto, 10 viagens pelo país, para inaugurar obras, e dois passeios de moto. A “motociata” mais recente, realizada no Rio de Janeiro, fez com que milhares de apoiadores do presidente se aglomerassem, desrespeitando as regras sanitárias da capital.

O número de aglomerações provocadas por Bolsonaro no último mês é mais do que o dobro das 12 ocasiões em que o presidente reuniu apoiadores sem distanciamento social – e muitos deles sem máscaras – entre 26 de março e 26 de abril (período imediatamente anterior ao início dos trabalhos da CPI). 

Abaixo, veja lista de ocasiões em que o presidente promoveu aglomerações durante o primeiro mês da CPI:

Com exceção de eventos realizados no prédio da Presidência, em Brasília, o chefe do Executivo federal não usa máscara em viagens e passeios. Além disso, durante agendas pelo país, tem o costume de criticar governadores e prefeitos por medidas de enfrentamento à pandemia e sai em defesa de medicamentos sem eficácia comprovada cientificamente contra a Covid-19.

Procurado, o Palácio do Planalto não se manifestou até a publicação desta reportagem. O Ministério da Saúde, apesar de ter sido demandado via e-mail, informou, por telefone, que não poderia comentar as ocasiões em que Bolsonaro descumpriu normais sanitárias, pois a pasta está abaixo da Presidência da República e, portanto, não poderia responder pelo presidente.

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Contra o isolamento social

Desde o início da pandemia, o presidente tem se manifestado contra o isolamento social. Quando o Brasil ainda registrava os primeiros casos da Covid-19, Bolsonaro falava em adotar o “isolamento vertical”, estratégia na qual apenas idosos e pessoas com comorbidades ficam isolados do resto da população, como forma de atingir a imunidade de rebanho contra a doença.

A insistência na estratégia foi um dos motivos que resultou na demissão de Luiz Henrique Mandetta do Ministério da Saúde. O médico defendia o isolamento horizontal, no qual o maior número possível de pessoas deve permanecer dentro de casa, independentemente de apresentarem fatores de risco ou não para a doença. 

Um ano e mais de 400 mil novas mortes depois, com o país se aproximando de uma terceira onda da pandemia, Bolsonaro continua defendendo a ideia. 

“Devemos estimular, sim; fazer uma campanha para o idoso e para quem tem comorbidades ficarem em casa. E o resto, pessoal, toma as medidas aí que estão sendo usadas no momento, e vamos para o ‘trampo’. Vamos trabalhar”, disse o presidente, em 11 de março.

A CPI da Covid investiga se o governo tentou implementar o isolamento vertical como forma de atingir a imunidade de rebanho contra o coronavírus. 

“A estratégia do presidente da República e do seu governo, desde o início, é disseminar a Covid-19 na expectativa de conseguir que 70% – ele [Bolsonaro] fala esse número cabalístico – da população seja contaminada e, com isso, se estabeleça a chamada imunidade natural, coletiva ou de rebanho. O governo expôs o povo brasileiro à doença e à morte, cometendo um crime de dolo eventual porque sabia que poderíamos chegar nisso”, disse o senador Humberto Costa (PT-CE) durante sessão da CPI, em 11 de maio.

Além de promover aglomerações, Bolsonaro também já colocou em dúvida o uso de máscaras de proteção facial e a eficácia das vacinas, além de sair em defesa de medicamentos sem eficácia comprovada cientificamente contra o novo coronavírus. 

Em 17 de maio, durante uma conversa com apoiadores, Bolsonaro chamou de “idiotas” as pessoas que ainda ficam em casa e seguem as medidas restritivas adotadas por governadores e prefeitos no enfrentamento à pandemia. 

“Tem uns idiotas aí… O ‘fique em casa’. Tem alguns idiotas que até hoje ficam em casa”, disse o presidente.

Presidente é multado no Maranhão

Após uma viagem ao Maranhão, em 21 de maio, o governador Flávio Dino (PCdoB) multou o presidente Jair Bolsonaro por provocar aglomerações e não usar máscara de proteção facial. 

A autuação foi expedida em nome de Bolsonaro e endereçada ao Palácio do Planalto. Foi dado o prazo de 15 dias, a partir da notificação, para o presidente se defender das acusações.

A multa pode ir de R$ 2 mil a R$ 1,5 milhão, segundo a norma que trata de infrações à legislação sanitária, mas só é aplicada ao fim do processo.

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