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O estudo de uma universidade dos Estados Unidos sobre as eleições brasileiras chama atenção para uma peculiaridade: a mudança na raça autodeclarada de mais de um quarto das pessoas que concorreram aos pleitos de 2014 e 2016. O levantamento foi produzido pelo pesquisador Andrew Janusz, do Departamento de Ciência Política da Universidade da Califórnia.

Dos 6.584 candidatos que competiram em ambas as eleições, 27,4% alteraram a classificação racial, aponta Andrew Janusz. Ele analisou dados pessoais dos candidatos informados no Requerimento de Registro de Candidatura (RRC), entregue ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A maioria preferiu “grandes categorias raciais”, de acordo com o estudo. Isso aconteceu com 88,4% dos postulantes a ocupar a chefia municipal e 82,3% dos concorrentes às vagas no Legislativo.

O estudo acadêmico ainda ressalta outras informações inconsistentes: menos de 1% informaram gênero diferente entre uma eleição e outra, e 2,5% mudaram a data de nascimento. Para Andrew Janusz, porém, embora haja outros dados contraditórios, classificar-se de forma divergente no quesito racial pode refletir “cálculos eleitorais estratégicos”.

Andrew Janusz explica que há um padrão: os candidatos mudam para categorias raciais “próximas”, como de branca para parda e de parda para branca.

As mudanças na raça autodeclarada refletem a posição que os candidatos estão contestando, a composição racial do distrito e como outros brasileiros classificam os candidatos racialmente"
Andrew Janusz, autor da pesquisa

 

Dos autodeclarados brancos em 2014, 81% preservaram a mesma informação em 2016. Os outros grupos tiveram mais desertores: 61% continuaram se afirmando como pardos; 69%, negros; 30%, amarelos; e 28%, indígenas.

O pesquisador conclui que os políticos descartam as identidades raciais que não lhe servem e se encaixam nos grupos que possam lhe garantir mais benefícios eleitorais. “Os padrões de autoclassificação racial refletem cálculos racionais de carreiras”, destaca.

Divulgação

O pesquisador Andrew Janusz

Andrew Janusz explica que escolheu o Brasil porque está interessado em representação racial e o país tem a maior população negra fora da África. “Quando vi esse fenômeno (mudança de raça) nos dados, fiquei confuso e quis entender por que alguns candidatos identificaram sua raça em uma maneira inconsistente ao longo do tempo”, disse ao Metrópoles.

Segundo ele, esta pesquisa específica durou quase um ano. “Quando eu estava no Brasil, conversei com alguns candidatos, políticos, assessores e ativistas”, conta. O estudioso diz estar trabalhando na dissertação sobre política racial brasileira há quatro anos.

Três hipóteses
Ao Metrópoles, Andrew Janusz detalhou as conclusões às quais chegou com a pesquisa. Segundo ele, a primeira hipótese consiste na ideia de que os candidatos se autodeclaram como membros de grupos raciais maiores. “Se os brasileiros têm preferências raciais e preferem votar em candidatos de seus respectivos grupos raciais (há evidência experimental que mostra esse tipo de ação), é eleitoralmente valioso para um candidato ser membro de um grupo maior do que um menor”, disse.

Janusz frisa ser mais comum a mudança para grupos maiores entre prefeitos do que entre vereadores, porque os candidatos ao Legislativo são eleitos de forma proporcional. “Pode ser vantajoso para os candidatos a vereador serem vistos como membros de um grupo racial minoritário, desde que o tamanho do grupo seja suficiente grande que eles podem eleger seu candidato preferido”, explica.

Por último, o acadêmico entendeu que, embora não haja regras para formalização da classificação racial, há normas informais para limitar a oportunidade de escolha.

Se um candidato se identifica como uma raça diferente da que outros o classificam, pode ser atacado pelo aparecimento de ‘afroconveniência’ ou ‘branqueamento’ e perder o respeito pelo eleitorado"
Andrew Janusz, autor da pesquisa

No levantamento, o estudioso frisa que alguns brasileiros mudam de raça a fim de garantir acesso a benefícios, como é o caso de cotas em universidades públicas. Para ele, se houvesse vagas reservadas para grupos sociais no Legislativo e Executivo, seria provável alguns candidatos se identificarem de forma estratégica para melhorar as chances de eleição.