*
 

O placar avassalador da vitória alemã sobre a Seleção Brasileira nas semifinais da Copa do Mundo de 2014 se transformou em uma espécie de metáfora, imagem usada com frequência para explicar nossas piores mazelas. Nada resume melhor o sentimento de frustração do que a expressão “nosso eterno 7 x 1”.

Na política, claro, o “7 x 1” continua impregnado em cada desdobramento da Operação Lava Jato — e os novos casos de corrupção revelados pelo noticiário. Além disso, os símbolos ligados à Copa também sofreram um desgaste considerável. É o caso da camisa da Seleção Brasileira. Desde os protestos pelo impeachment da presidente cassada Dilma Rousseff (PT), a roupa virou carimbo ideológico — principalmente, no embate entre “coxinhas” e “mortadelas”.

Não à toa, os pré-candidatos devem torcer neste ano de forma discreta, em ambientes controlados e longe do eleitorado. Ao serem questionados sobre agendas públicas durante os jogos do Brasil, eles foram praticamente unânimes em suas respostas: as partidas serão assistidas na companhia de familiares.

A assessoria do deputado Jair Bolsonaro (PSL) afirmou que nenhuma agenda pública será marcada para os dias de jogos da seleção. O pré-candidato Flávio Rocha (PRB) segue a mesma linha. Segundo ele, vai “parar para torcer para o Brasil”.

Os outros pré-candidatos deram respostas parecidas. Geraldo Alckmin (PSDB), Henrique Meirelles (MDB), Alvaro Dias (Podemos), Ciro Gomes (PDT), Guilherme Boulos (PSOL), Manuela D’Ávila (PCdoB), Rodrigo Maia (DEM), João Amoedo (Novo) e Levy Fidelix (PRTB) não têm previsão de agendas públicas para os dias de jogos do Brasil — ainda que todos admitam que a campanha e suas tratativas continuarão durante o período do evento esportivo. Marina Silva (Rede) não se manifestou.

Para o sociólogo Rogério Baptistini (Mackenzie), “não existe clima para políticos tentarem ‘aparecer’ durante a Copa”. Segundo o professor, os pré-candidatos têm optado por aparições públicas controladas. “O evento está manchado pela crise política. Os pré-candidatos não querem ficar expostos a vaias e xingamentos”, avaliou.

O professor de curso de pós-graduação sobre a história sociocultural do futebol, Flávio de Campos (USP), não descarta uma tentativa de uso político de nossa única unanimidade: o técnico Tite, que já rechaçou, em entrevistas, qualquer aproximação com o universo político. “Se a seleção avançar, jogar bem, podemos assistir à disputa pelo maior símbolo dessa Copa, que hoje é o técnico Tite”, disse.