João Amoêdo: “Bolsonarismo está decrescente”

Presidente do Partido Novo afirma que eleitorado "está virando a página" do antipetismo e diz que presidente se isola ao atacar instituições

Michael Melo/MetrópolesMichael Melo/Metrópoles

atualizado 14/10/2019 12:40

Reeleito para mais quatro anos à frente do partido Novo, o engenheiro e empresário João Amoêdo não tem pressa em expandir a sigla que criou e em 2018 elegeu oito deputados federais, 11 estaduais, um distrital e um governador. Mesmo depois de receber 2,5% dos votos e ficar em quinto na disputa presidencial, o Novo vai lançar apenas 70 candidatos a prefeito pelo Brasil.

Nessa entrevista ao Estado, Amoêdo rejeita o título de “direita” ao falar sobre a posição de sua legenda no espectro político, avalia que o eleitorado está “virando a página” do antipetismo e faz críticas ao governo Bolsonaro.

Onde o Novo se coloca no campo da direita?
Se for para ter um rótulo, preferimos ser um partido liberal mais que de direita. Até porque essa classificação de direita acaba tendo vários significados ou visões diferentes. Nosso partido é liberal porque coloca o cidadão como protagonista e não o Estado. Acreditamos na capacidade do cidadão de resolver seus problemas. Nosso foco é transferir poder do Estado para o cidadão.

A direita brasileira tem alguns grupos com uma agenda mais conservadora nos costumes. Isso diferencia o Novo de partidos como o PSL de Bolsonaro?
Certamente. No caso do Novo, entendemos que a pauta dos costumes é uma definição do cidadão e não uma imposição do partido.

O Novo rejeita o rótulo de direita?
Esse rótulo não expressa bem o que o novo é. As pessoas no Brasil ainda fazem uma associação grande com direita e regime militar, ditadura.

Acredita que o antipetismo ainda estará muito presente nas eleições de 2020?
Um pouco, mas as pessoas estão virando a página do antipetismo. O cidadão está preocupado com coerência. O viés ideológico será menor.

O bolsonarismo ainda será um fenômeno forte até lá?
O bolsonarismo foi muito forte na polarização, mas está decrescente. Bolsonaro se isola ao atacar as instituições. Se isola do Congresso, do partido e acaba se restringindo a um núcleo familiar. Esse processo vai continuar e vai desgastar o bolsonarismo.

Depois de conseguir um bom resultado nas eleições de 2018, o Novo terá poucos candidatos a prefeito ano que vem. Esse processo seletivo tão rigoroso não impede um crescimento mais consistente do partido?
Pelo contrário. Normalmente a prática partidária é de abrir vários diretórios e lançar puxadores de voto, mas isso não firma a sigla como instituição nem define uma imagem. O nosso processo é rigoroso porque queremos trazer gente preparada para a política. E como não usamos dinheiro do Fundo Partidário, nossos recursos são limitados ao apoio dos filiados. É um processo de crescimento orgânico. Outra coisa que nos limita é a predisposição de pessoas para virem para política. O processo seletivo está acontecendo em cerca de 70 cidades. Pelos nossos cálculos estaremos em cidades que vão somar cerca 65 milhões de habitantes. Em 2016 lançamos candidatos em 5 cidades, agora são 70.

Minas Gerais é governado pelo Novo, mas até agora não há ninguém inscrito em Belo Horizonte para disputar a prefeitura. Isso preocupa?
Vai aparecer. Há tempo. Até o fim do mês, quando termina o processo de inscrição, teremos candidato lá. Lá tem particularidades políticas por ser governo. Isso acabou atrasando um pouco o processo.

Existe alguma possibilidade de o Novo se aproximar do governador João Doria (PSDB) ou outro candidato em 2022?
Muito pouco provável. Nós temos muitos diferenciais em relação à maioria dos partidos, como o fato de não usar Fundo Partidário. O Novo está construindo a sua marca. Tivemos uma estreia muito boa. Batemos a cláusula de barreira e fizemos oito deputados federais. Em 2022 a ideia é ter um candidato próprio de novo.

Como avalia o governo Bolsonaro?
Tem aspectos positivos, notadamente a equipe econômica. Alguns ministros têm feito um bom trabalho: Infraestrutura, Agricultura, Justiça. Na pauta econômica há um alinhamento muito grande com o que Novo defendia, que é a responsabilidade fiscal, reforma da Previdência, liberdade econômica. O lado negativo tem alguns pontos. O primeiro: não existem prioridades. O presidente atua em várias frentes e dá muita ênfase a assuntos que não são prioritários para um país com quase 13 milhões de desempregados. Outra coisa que me incomoda é a questão das instituições. Muitas vezes há ataques às instituições. A gente viu isso em relação a Polícia Federal, imprensa, Supremo, partidos, Congresso. Nós do Novo prezamos muito as instituições. O terceiro ponto é a continuação do debate eleitoral.

O Brasil está muito dividido. A gente esperava que, com as eleições, tivesse menos isso do nós contra eles. Mas ele continua no embate eleitoral. Continua em campanha. Por último, tem o combate à corrupção. Essa falta de transparência no assunto dos filhos não é uma boa sinalização.

O sr. falou sobre alguns ministérios que estão indo bem, mas não citou o Meio Ambiente. Até que ponto as atitudes e discursos do Ricardo Salles respingam no partido? Como avalia o desempenho dele?
Impacta muito pouco o partido. Ele não é um ministro do partido Novo. É apenas um filiado do Novo que foi convidado pelo Bolsonaro para fazer a gestão do meio ambiente. Nós não tomamos conhecimento do que acontece no Ministério do Meio Ambiente. Não interagimos de nenhuma forma com ele. O Ricardo é uma pessoa bem preparada, teve experiência na área pública e tem feito coisas que fazem sentido. Mas muitas vezes há um aspecto muito ideológico. Em alguns ministério essa questão ideológica é forte.

No caso do Salles também é ideológico?
Também. No Meio Ambiente, Educação e Relações Exteriores. Isso cria muito ruído e dificulta o diálogo. O meio ambiente é um tema complexo e polêmico. Deveriam deixar o aspecto ideológico um pouco de lado e conversar mais.

A agenda do Ministério do Meio Ambiente não estaria mais para ruralista? A imagem do Brasil no exterior com essas queimadas ficou prejudicada…
Uma conjugação de fatores levou a isso, mas é reversível. O Ministério da Agricultura tem feito um bom trabalho. Dá para juntar as duas coisas e refazer essa imagem com uma atitude mais serena e mais diálogo.

Até que ponto o sucesso ou fracasso do Romeu Zema, governador de Minas Gerais, refletirá no Novo?
Ele tem feito um trabalho muito bom. Fez vários cortes de privilégios. Conseguiu passar uma reforma administrativa. Tem um processo de fiscalização a ser feito lá. Ele tem hoje uma taxa de aprovação elevada. Obviamente se for bem ajuda o partido, mas não será determinante se tiver algum problema.

Qual a imagem do Brasil no mundo?
O principal aspecto que precisamos recuperar é a sensação de estabilidade e segurança jurídica. A falta de prioridade das pautas, e o viés ideológico acabam contribuindo para uma imagem pior.

O apresentador Luciano Huck tem sido apontado como um possível candidato com chance de liderar uma frente de centro em 2022. Vocês podem estar no mesmo projeto?
É difícil saber porque não conheço as ideias do Luciano e as pautas que ele defende. A gente deve trazer soluções para o Brasil pelas instituições. A gente sempre fica procurando um salvador. Eu gostaria de saber do Luciano, por exemplo, qual será o partido dele, que ideias eles vai representar.

O sr. acha que ele ainda é uma incógnita?
Para mim ele ainda é uma incógnita. O fato de ser uma pessoa conhecida e bem-intencionada é positivo, mas não é o suficiente.

Huck pode ser o candidato do Novo em 2022?
O Novo está sempre aberto, mas temos um processo seletivo.

O sr. pretende ser candidato novamente em 2022?
Não tenho esse projeto. O projeto hoje é fazer a gestão do partido. Acabei de ser eleito para um mandato de mais quatro anos. Agora o foco é 2020.

Pelo perfil do Novo não seria melhor ter uma alternância de poder no comando do partido do que consolidar um cacique?
Fizemos um processo seletivo para o diretório. Foi aberto a todos filiados. A chapa foi eleita por unanimidade. Ser presidente do Novo é um trabalho voluntário. Não tem nenhuma benesse. O estatuto prevê apenas uma reeleição.

Os vazamentos de mensagens atribuídas a Sergio Moro e a procuradores da Lava Jato mostram uma relação muito próxima do então juiz com a força-tarefa de Curitiba. Como fica o direito de defesa? Os fins justificam os meios?
Os fins nunca justificam os meios. A gente tem muito essa tese no Novo. Agora no caso específico, algumas coisas poderiam ter sido evitadas, mas na essência não mudou nada em relação às provas e a condenação do Lula. Não vi nada que tenha me chamado atenção para mudar o resultado das investigações e das penas.

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