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Ao deixar Curitiba para aceitar o convite para o Ministério da Justiça, o juiz Sergio Moro disse que tomou a decisão com “certo pesar”, já que terá que abandonar 22 anos de magistratura. Embora não tenha citado, Moro tem uma inspiração importante para sua decisão: o juiz italiano Giovanni Falcone, responsável pela condenação de mais de 300 mafiosos nas décadas de 1980 e 1990.

Muito antes de Moro, Falcone deixou de lado a carreira de magistrado para ocupar um cargo no Ministério da Justiça. A admiração do brasileiro pelo italiano é conhecida. Sempre que possível, ele é citado pelo brasileiro em decisões, na recomendação de livros ou em público.

Em 2015, durante evento do Lide, empresa que à época era comandada por João Doria, Moro deixou claro que se inspira no magistrado italiano. “Nos momentos de dificuldade, leio livros sobre Giovanni Falcone e vejo que os casos nos quais ele atuava eram muito mais profundos que o meu. Então sigo em frente”, disse o juiz à época.

Um desses livros é Excellent Cadavers, de Alexander Stille. A obra conta a história de Falcone desde o início das investigações sobre a máfia italiana na Sicília, até sua morte, quando estava no Ministério da Justiça.

Em 2017, a pedido do site Jota, Moro afirmou que, se há algum juiz que mereça o rótulo de herói, este seria Falcone. “O livro contém diversos relatos e lições importantes do magistrado. Indispensável”, escreveu.

A admiração pelo italiano está presente até mesmo em decisões da Lava-Jato. Em várias delas, principalmente nas que determina mandados de busca e apreensão ou pedidos de prisões, Moro cita trechos da obra do italiano. As menções ocorreram em algumas das principais decisões tomadas na operação, como o despacho que autorizou a primeira-fase da Lava-Jato ou a prisão de João Santana, ex-marqueteiro do PT.

A trajetória de Falcone, toda construída em Palermo, na Sicilia, teve uma mudança brusca em 1991, quando o juiz aceitou um cargo no Ministério da Justiça no governo de Giulio Andreotti. Naquele momento, o governo italiano estava cobrado pela opinião pública para investigar a máfia na Sicilia. A pressão foi causada, sobretudo, após a morte de Salvo Lima, político do partido Democracia Cristã e aliado de Andreotti.