Coordenador de campanha petista defende inclusão de Ciro em oposição

"Não temos tempo de curar feridas", diz Gabrielli em carta a Lula, na qual pede formação imediata de uma frente contra Bolsonaro

Laycer Tomaz/Câmara dos DeputadosLaycer Tomaz/Câmara dos Deputados

atualizado 29/10/2018 16:58

Um dia após a vitória de Jair Bolsonaro à Presidência da República, o coordenador da campanha de Fernando Haddad, José Sergio Gabrielli divulgou uma carta aberta ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na qual defende uma formação de uma frente ampla de oposição imediatamente.

Na carta, Gabrielli, ex-presidente da Petrobras, defende a união de forças, inclusive com a participação do candidato derrotado ao Planalto pelo PDT, Ciro Gomes. “Não teremos tempo para curar as feridas”, diz.

Ele se refere a Ciro Gomes como “o neutro”, devido ao posicionamento do cearense no segundo turno de não se posicionar em relação da qualquer um dos candidatos.

“Ciro Gomes, o neutro, perdeu substância política, mas continuará como um importante personagem da política brasileira e deverá compor a frente democrática e a resistência contra Bolsonaro”, disse Gabrielli na carta.

Ciro, nesta segunda-feira (29/10) já começou a demarcar sua posição no campo oposicionista.

Leia a íntegra da carta:

Carta Aberta ao Presidente Lula

São Paulo, 29 de outubro de 2018

Escrevo cedo na manhã do dia após as eleições. Bolsonaro ganhou e seu primeiro discurso, retomando uma velha retórica da Guerra Fria promete o combate ao socialismo e comunismo como princípios fundantes de seu ideário. Cito, literalmente:

o Brasil não poderia continuar flertando “com o socialismo, o comunismo, o populismo e o extremismo da esquerda”.

 Com a Constituição na mão, Bolsonaro promete cumpri-la. Como lembrou o presidente do STF, ministro Toffoli, ela diz no seu terceiro artigo e eu cito literalmente:

 Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:

 I – construir uma sociedade livre, justa e solidária;

II – garantir o desenvolvimento nacional;

  III – erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;

 IV – promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. 

São dois discursos em um. Qual prevalecerá será resultado da resistência democrática. Da força dos que se opuseram ao discurso da raiva e do ódio.

Não pode predominar o preconceito, a apologia da desigualdade, o desrespeito as diferenças, a falta de liberdade, a perseguição aos divergentes. Não pode. Foi isto que motivou os milhões de brasileiros que, apesar de perderem as eleições, votaram em Haddad e Manuela. 

Comparando-se os votos do primeiro e segundo turno, Haddad/Manuela tiveram 15,7 milhões de votos a mais do que no primeiro turno, enquanto Bolsonaro cresceu apenas 8,5 milhões entre os dois turnos. Os democratas, que se opuseram aos riscos da democracia, mais do que em dobro votaram em Haddad. Mesmo entre os que votaram em Bolsonaro, muitos acreditam que ele não cumprirá a primeira parte do seu discurso e seguirá os limites impostos pela Constituição.

A resistência democrática será a principal batalha a ser travada. Haddad desempenhará um dos principais papeis neste movimento. Com milhões de votos, ele consolidará uma liderança de tipo novo, articulando sua expressão individual com a força do sujeito coletivo que é o partido. 

Não teremos tempo para curar as feridas. Mesmo feridos, a luta continua. Lideranças no Senado emergirão e Jaques Wagner surge como um grande quadro. Bem relacionado com os governadores do Nordeste, com expressão nacional e recém-chegado ao Senado com ampla vitória na Bahia, ele será um líder nacional importante.

O povo nordestino, sob a liderança de seus governadores, foi um gigante. Os estados do Nordeste, bastiões da democracia, honrando sua história de lutas, foram resistentes e deram uma grande vitória a Haddad/Manuela. Agora sofrerão assédios, pressões, perseguições. Mas como já disse um escritor, o nordestino é antes de tudo um forte.

Ciro Gomes, o neutro, perdeu substância política, mas continuará como um importante personagem da política brasileira e deverá compor a frente democrática e a resistência contra Bolsonaro.

Os movimentos sociais serão um dos focos do ataque do Governo e, portanto, passarão a adotar uma tática defensiva, de sobrevivência. Terão um papel importante na organização da sociedade e na construção de novas alternativas de pressão política. Pautas defensivas e novas formas de luta, como a intensa utilização das redes sociais para mobilização e formação, deverão se tornar mais presentes. Viva o MST, a CMP, o MTST e todos os movimentos populares.

A questão da soberania nacional, com a luta contra a entrega de nossas riquezas a interesses internacionais e a preservação dos direitos sociais já conquistados, bem como das políticas públicas que reduzem a desigualdade serão importantes palcos de batalhas. Um livro numa mão e carteira de trabalho na outra deverão ser buscas incessantes da luta de resistência.

O PT resulta nesta quadra como o maior instrumento de luta do povo brasileiro. Maior bancada de deputados federais, com ampla votação nos estados do Nordeste, forte presença em outros estados, ganhou o apoio de segmentos anti-petistas, que se revoltaram contra o risco à democracia. No entanto, estes segmentos continuam com críticas ao partido. Saber combinar a aceitação destas críticas, correções de rumo e incorporação de novas posições, será um exercício difícil de habilidade política de quem tem o papel de liderança na luta de resistência. A resistência solitária não é a melhor resistência. A resistência coletiva é mais poderosa. 

A presidente Gleisi, que sai da eleição como a grande liderança partidária, terá uma tarefa imensa de manter coesionado o PT, garantir ampla articulação com os outros partidos, atrair os personagens da luta de resistência democrática e circular pelo pais, organizando a sociedade na luta pela redução das desigualdades e contra a opressão e diminuição de direitos.

O PC do B, parceiro aliado com a apresentação desta nova liderança que é Manuela DÁvila, foi chave na tentativa de coligação das forças progressistas e continuará desempenhando papel importante na manutenção da unidade. Importantes parcelas do PSB e do PDT e o PROS também estiveram presentes nesta disputa eleitoral tomando lado a favor da democracia e das mudanças. 

Um dos maiores desafios para o PT é manter este apoio. Ser mais propositivo em questões concretas e adotar um processo de organização e convencimento amplo de suas posições será um caminho importante nesta reconquista de liderança. Não há como pensar numa política hegemônica neste momento. É preciso consolidar a ação conjunta com o PSOL, cujo posicionamento político foi irretocável, com firme compromisso com as lutas populares e com a defesa da democracia. Viva Guilherme Boulos e o PSOL.

Presidente Lula, a luta por sua libertação desta condenação injusta volta a ser um importante foco da disputa. Eles vão querer ataca-lo ainda mais. Nossa insurgência contra as arbitrariedades e pela defesa de seus direitos não pode deixar de estar sob atenção permanente.

A campanha foi um bom combate. Contra adversários poderosos, isolados politicamente, conquistamos mais de 47 milhões de votos, ampliando nossos apoios, no segundo turno, com a sociedade, ainda que muitos personagens do centro politico tenham vacilado. No entanto, não faltaram artistas, intelectuais, juristas, dirigentes de vários segmentos da sociedade, lideres das mais diversas religiões que perceberam os riscos que a democracia vivia e se manifestaram a nosso favor. Estas energias democráticas não podem agora ser dispersadas.

Presidente Lula, sei que está acompanhando de perto tudo que está acontecendo aqui fora. Um abraço solidário

José Sergio Gabrielli de Azevedo

 

 

 

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