Críticas ao PT e cobranças ao governo de Jair Bolsonaro marcaram a primeira entrevista de Ciro Gomes após a posse do novo presidente brasileiro, concedida ao El País. O ex-candidato à Presidência da República pelo PDT explicou a forma que pretende fazer oposição ao atual governo nos próximos anos e afirmou que está escrevendo um livro sobre “macroeconomia, mas com algumas digressões políticas, filosóficas”. A obra ainda não tem título nem data para ser lançada. A Lupa analisou o grau de veracidade de algumas frases ditas por Ciro. Confira o resultado abaixo:

 

“[Os países da Liga Árabe]São nossos maiores importadores, por exemplo, de carnes de caprinos e ovinos.”
Ciro Gomes, ex-candidato à Presidência da República pelo PDT, em entrevista ao El País, publicada no dia 6 de janeiro de 2019

Em 2018, entre os 22 países que compõem a Liga Árabe, apenas o Marrocos importou carnes de ovinos e caprinos do Brasil, no valor de US$ 93 (por 9kg), de acordo com o ComexStat, sistema do governo federal sobre o comércio exterior brasileiro. As Ilhas Marshall foram a economia que mais importou carne de cabras, cordeiros e ovelhas do Brasil do ano passado: um volume de apenas US$ 15.640 para 1.624kg.

Os países da Liga Árabe – Arábia Saudita, Argélia, Bahrein, Catar, Comores, Djibouti, Egito, Emirados Árabes Unidos, Iêmen, Iraque, Jordânia, Kuwait, Líbano, Líbia, Marrocos, Mauritânia, Palestina, Síria (suspenso), Omã, Somália, Sudão e Tunísia – são, na verdade, os maiores importadores de carne halal do Brasil.

Halal é uma palavra árabe que significa legal, permitido. Animais como bovinos, ovinos, caprinos e aves podem ser considerados alimento halal se forem abatidos conforme os rituais islâmicos. As regras determinam quem pode fazer o abate – apenas muçulmanos que tenham atingido a puberdade –, como deve ser a faca e qual o tipo de corte que deve ser feito, por exemplo. Para que a carne seja considerada halal, o animal não pode sofrer no momento do abate, nem estar com sede.

Juntos, os países da Liga Árabe formam o maior mercado importador de cortes de aves do Brasil. Em 2018, foram 1,4 milhão de toneladas, o equivalente a US$ 2,2 bilhões. Eles também são o segundo maior mercado importador de carne bovina, com 328,3 mil toneladas no ano passado, o que rendeu um volume de US$ 1,1 bilhão ao país.

Procurado, Ciro não retornou.

 

 

“Nós devemos chamá-lo [Bolsonaro] para a agenda do emprego, palavra que ele não citou [nem] uma vez sequer, nem no discurso oficial.”
Ciro Gomes, ex-candidato à Presidência da República pelo PDT, em entrevista ao El País, publicada no dia 6 de janeiro de 2019

O presidente Jair Bolsonaro, em seu discurso na cerimônia de recebimento da faixa presidencial, mencionou o desemprego como um dos “desafios” de seu governo. “Temos o grande desafio de enfrentar os efeitos da crise econômica, do desemprego recorde, da ideologização de nossas crianças, do desvirtuamento dos direitos humanos e da desconstrução da família”, declarou.

Em seu discurso de posse, no Congresso, ele disse que se pautará “pela vontade soberana daqueles brasileiros (…) que desejam conquistar, pelo mérito, bons empregos”.

Procurado, Ciro não respondeu.

 

 

“O [Antônio] Palocci foi o homem a quem o Lula outorgou, atribuiu, escolheu para comandar a economia do Brasil por oito anos.”
Ciro Gomes, ex-candidato à Presidência da República pelo PDT, em entrevista ao El País, publicada no dia 6 de janeiro de 2019

Antonio Palocci foi nomeado ministro da Fazenda pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 1º de janeiro de 2003. Ele pediu afastamento ainda durante o primeiro mandato de Lula, em março de 2006, após escândalo envolvendo a quebra do sigilo bancário de um caseiro que fez acusações contra ele. Depois disso, não voltou à Fazenda, sendo substituído definitivamente por Guido Mantega. Ficou, portanto, 3 anos e 3 meses no governo Lula, e não 8, como disse Ciro.

Procurado, Ciro não respondeu.

 

“A Dilma recebeu o Brasil com 4% de desemprego, entregou pro Michel Temer com 14% de desemprego.”
Ciro Gomes, ex-candidato à Presidência da República pelo PDT, em entrevista ao El País, publicada no dia 6 de janeiro de 2019

Segundo a Pesquisa Mensal de Emprego (PME), do IBGE, em dezembro de 2010, último mês antes da posse de Dilma Rousseff (PT), a taxa de desemprego era de 5,3%. Dois meses antes do impeachment, em fevereiro de 2016, a taxa era de 8,2%.

A PME de fevereiro de 2016 foi a última edição da pesquisa, que foi descontinuada pelo IBGE e substituída pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnadc).

A Pnadc ainda não era realizada quando Dilma assumiu a presidência. No trimestre móvel de fevereiro, março e abril de 2016, último antes do afastamento de Dilma, a taxa de desocupação era de 11,2%.

Procurado, Ciro não respondeu.

 

“Esse é o resultado das eleições no segundo turno em São Paulo, a terra do [Fernando] Haddad: ele tirou 32% dos votos válidos, e o Bolsonaro tirou 68%. O Bolsonaro ganhou no Rio de Janeiro com 70% [dos votos válidos].”
Ciro Gomes, ex-candidato à Presidência da República pelo PDT, em entrevista ao El País, publicada no dia 6 de janeiro de 2019

Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Bolsonaro fez 67,97% dos votos válidos no estado de São Paulo no segundo turno das eleições presidenciais de 2018. Haddad fez 32,02%. No Rio de Janeiro, o atual presidente obteve 67,95% dos votos válidos.

 

 

“(…) [Bolsonaro] ganhou em Minas Gerais com 70%.”
Ciro Gomes, ex-candidato à Presidência da República pelo PDT, em entrevista ao El País, publicada no dia 6 de janeiro de 2019

Segundo o TSE, Bolsonaro fez 58,19% dos votos em Minas Gerais no segundo turno das eleições presidenciais de 2018.

 

“Nós [Ceará] demos dois terços dos votos contra o impeachment.”
Ciro Gomes, ex-candidato à Presidência da República pelo PDT, em entrevista ao El País, publicada no dia 6 de janeiro de 2019

O Ceará tem uma bancada de 22 deputados. Em 2016, 11, exatamente a metade, votaram contra o impeachment de Dilma Rousseff. Nove foram favoráveis, houve uma abstenção e uma ausência.

Se consideradas a abstenção e a ausência, que na prática servem como um voto contrário ao impeachment, chega-se a 59% do total – ainda assim, menos do que os dois terços citados por Ciro.

Procurado, Ciro não respondeu.

 

“O Brasil deu asilo até ao [Alfredo] Stroessner [ditador paraguaio].”
Ciro Gomes, ex-candidato à Presidência da República pelo PDT, em entrevista ao El País, publicada no dia 6 de janeiro de 2019

Alfredo Stroessner, ditador paraguaio entre 1954 e 1989, fugiu de seu país após golpe militar e recebeu asilo do então presidente do Brasil, José Sarney. Ele viveu em Brasília até sua morte, em 2006, e seu status de asilado político foi mantido pelos presidentes Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva.

Com reportagem de Chico Marés