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O presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), definiu nesta quinta-feira (1º/11) o juiz Sérgio Moro como um “soldado que está indo à guerra sem medo de morrer” e afirmou que o magistrado terá mais poderes para combater a corrupção e o crime organizado no Ministério da Justiça do que teve até hoje à frente da 13ª Vara Federal Criminal de Curitiba.

Em entrevista concedida em sua casa, no Rio de Janeiro, Bolsonaro se comparou a seu futuro ministro e disse que “cresceu politicamente” a partir de episódios como a Operação Lava Jato e o escândalo do Mensalão.

“O trabalho dele foi muito bem feito. Em função do combate à corrupção e à Operação Lava Jato, as questões do Mensalão, entre outras, me ajudaram a crescer, politicamente falando”, disse o presidente eleito.

Bolsonaro descartou a possibilidade de a Lava Jato ser enfraquecida com a saída de Moro de Curitiba, alegando que outros juízes vão assumir o trabalho que vinha sendo feito pelo futuro ministro.

A magistrada substituta na 13ª Vara Federal de Curitiba, Gabriela Hardt, ficará à frente dos processos até que seja escolhido um novo juiz titular. O presidente eleito – que, depois do atentado sofrido em setembro, passou a contar com forte esquema de proteção em todos os seus deslocamentos – também comparou as restrições de segurança sofridas pelo magistrado às suas.

“Temos de reconhecer o trabalho dele. É um homem que perdeu a liberdade de comprar um pão na padaria, de passear com a família no shopping. Costumo dizer que não só ele, como eu, temos menos direito do que alguém com uma tornozeleira, tendo em vista a questão da segurança.”

Na eventualidade de abertura de uma futura de vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), o presidente eleito disse que não teria problema em perder o ministro para nomeá-lo para o posto. Em 2020, ao completar 75 anos, o ministro Celso de Mello terá de se aposentar compulsoriamente. No ano seguinte, outra vaga se abrirá com a saída de Marco Aurélio Mello.

“Não ficou combinado, mas ele tendo um bom sucessor, estamos abertos a isso [ida de Moro para o STF]. A decisão dele é difícil, está abrindo mão da carreira, 22 anos de serviço, para enfrentar um desafio. Não tem compromisso de tempo. Para mim, ele fica ad eternum lá [no ministério]”, afirmou ele.

Questionado se Moro seria um “xerife” de seu governo, Bolsonaro respondeu: “Se você quiser dar esse nome para ele”. Na sequência, afirmou que não haverá interferências suas em situações de aliados que se envolvam em casos de corrupção. “Vai para o pau. Sem problema nenhum.”

Ao falar de críticas feitas por líderes do PT à indicação de Moro para novo o governo, ele disse: “Se estão reclamando, é porque fiz a coisa certa”.

A exemplo de Paulo Guedes, que comandará o novo Ministério da Economia (que vai consolidar as atribuições que eram antes da Fazenda, do Planejamento e da Indústria e Comércio), Moro vai assumir um superministério, com poderes ampliados. Entre outras mudanças já definidas por Bolsonaro, a pasta da Justiça terá agora a responsabilidade de cuidar também da Segurança Pública, à qual estão vinculados órgãos como a Polícia Federal, a Polícia Federal Rodoviária e a Secretaria Nacional de Segurança Pública.

Questionado sobre a falta de experiência de Moro com assuntos relacionados à área de segurança, Bolsonaro respondeu que o juiz terá “ampla liberdade para escolher” nomes a cargos do ministério, como o do chefe da Polícia Federal. “Eu o vi como se fosse um jovem universitário recebendo seu diploma. Está com muita vontade de levar avante sua agenda.”

Bolsonaro disse ainda que Moro, na condição de juiz, nunca cedeu a pressões ao tomar decisões. “Botou [na prisão] gente que nunca poderíamos imaginar ser presa por 10 minutos. Foi fundo com seu conhecimento, investigando e punindo, em primeira instância, sem aceitar pressão de quem quer que seja”, disse o presidente eleito.

Uma vez aceito o convite para assumir o Ministério da Justiça, Moro deverá participar das reuniões de transição de governo, a partir da semana vem, em Brasília. Segundo Bolsonaro, o juiz vai se aposentar de forma proporcional e gozar de férias atrasadas.