Avesso à mídia? Weintraub lidera ranking de coletivas no governo

Conhecido pelas publicações cômicas nas redes sociais, o ministro não descarta o encontro físico para tratar de assuntos do MEC

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atualizado 12/10/2019 6:12

Com apoio dos militantes bolsonaristas, o ministro Abraham Weintraub, do Ministério da Educação, tornou-se popular nas redes sociais devido às publicações irônicas, e cômicas, que costuma fazer. Quando o assunto é alfinetar a oposição, o titular da pasta não poupa caracteres. Já para tratar de temas referentes à competência do órgão, o ministro expõe um lado avesso às novas mídias e opta pelo contato físico com jornalistas: ele lidera o ranking de convocações de coletivas de imprensa no governo de Jair Bolsonaro (PSL).

Explorando a face humorística, Weintraub chamou atenção ao divulgar um vídeo oficial rodando um guarda-chuva ao som da canção Singing in The Rain – de um clássico filme dos anos 50 –, avaliando estar “chovendo fake news” sobre o seu ministério. Mesmo sem estabelecer uma relação de causa, ele passou a dialogar mais com a mídia. Possivelmente de forma a combater a propalada “chuva”. Ainda assim, ele é adepto das críticas bolsonaristas à imprensa.

Além disso, ele costuma publicar frases polêmicas. Uma delas, criticando um mural com a imagem do educador Paulo Freire, que fica em frente ao MEC.

Mural em frente ao MEC…É ou não é feio de doer?

Abraham Weintraub

Para o professor de Comunicação e Ética da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) Luiz Peres Neto, a postura do ministro nas redes sociais busca um tom “polemista”. “De alguém que utiliza a ironia como forma de deslegitimar a interlocução. Usa uma estratégia retórica para se ter razão”, avalia.

O Metrópoles realizou um levantamento para identificar o número de coletivas convocadas pelos 23 ministros da gestão de Jair Bolsonaro (PSL), com base na agenda divulgada nos portais das pastas durante este ano. O chefe do MEC disparou na frente, com 18 encontros marcados com jornalistas. Atrás, está Ernesto Araújo, ministro das Relações Exteriores, com 14. Contudo, é importante lembrar que há uma diferença entre os dois, já o responsável pelo Itamaraty está no cargo desde o início do governo, diferentemente de Weintraub.

Araújo tomou posse no Ministério das Relações Exteriores (MRE) na primeira semana de governo, mais precisamente no dia 2 de janeiro. Mas o comando do MEC passou por algumas turbulências. Chefiada inicialmente pelo professor Ricardo Vélez Rodrigues, a pasta foi alvo de inúmeras polêmicas. Até que em abril o colombiano foi exonerado e Weintraub assumiu. Ou seja, há uma disparidade de três meses na atuação dos ministros.

Em relação ao comportamento do ministro do MEC  de convocar coletivas de imprensa, indo na contramão da maior parte dos integrantes do governo, Neto acredita que é uma forma de atrair olhares. “Ao fazer isso ele consegue ter maior atenção e, ao compor um personagem excêntrico, ele ‘deita e rola’ no palco montado pelas coletivas”, avaliou o professor.

Veja o ranking:

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Em 3º lugar no ranking, está a ministra Tereza Cristina, da Agricultura, com 12 coletivas. Em seguida, vem Luiz Henrique Mandetta, do Ministério da Saúde, que marcou 7 encontros com a mídia. Na 5ª posição estão outros três ministros: Damares Alves, da Mulher, Família e dos Direitos Humanos; Sergio Moro, da Justiça e Segurança Pública e André Luiz de Almeida, da Advocacia-Geral da União (AGU).

O astronauta e ministro da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação, Marcos Pontes, ocupa o 6º lugar, ao lado dos colegas Fernando Azevedo e Silva, da Defesa; Osmar Terra, da Cidadania e Wagner Rosário, da Controladoria-Geral da União(CGU). Todos eles convocaram apenas três coletivas.

Braço direito do presidente da República, o ministro Paulo Guedes, da Economia, não chamou muitas coletivas à imprensa. Ele marcou apenas dois encontros com veículos de comunicação. É comum, no caso do ministro da Economia, a realização dos chamados “quebra-queixo” que, no jargão jornalístico, se refere a entrevista para diversos jornalistas improvisada entre um compromisso e outro. No mesmo patamar, está Onyx Lorenzoni, da Casa Civil – que esteve sob os holofotes no início do governo, quando admitiu ter recebido dinheiro de Caixa 2. Ele está na mira do Supremo Tribunal Federal (STF).

Protagonistas silenciosos
Com apenas uma coletiva convocada durante o ano, protagonistas do governo aderem à linha silenciosa. É o caso do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que recentemente recebeu o prêmio de “Exterminador do Futuro“, na Câmara dos Deputados, em meio a uma discussão sobre as queimadas na Floresta Amazônica. Ele não marcou encontros com jornalistas após os impasses relacionados à preservação do meio ambiente.

Outro ministro que teve pouco contato com a imprensa, por meio de coletivas, foi o general Augusto Heleno. Ele passou por uma “saia justa” quando um sargento foi preso com 49 kg de cocaína, transportados em um avião da Força Aérea Brasileira (FAB). Como o militar é chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), foi cobrado inclusive pelo filho do meio do presidente, Carlos, como um dos responsáveis no episódio. Ele foi à Câmara se defender.

Os ministros Bento Albuquerque, de Minas e Energia e Tarcísio Gomes, da Infraestrutura, estão na mesma colocação.

Zero contato
Cinco ministros não convocaram nenhuma entrevista coletiva com a imprensa na atual gestão. Entre eles está Marcelo Álvaro Antônio, do Turismo, que é alvo de uma investigação do Ministério Público relacionada às candidaturas-laranja no PSL – partido de Bolsonaro. Ele não marcou encontro com jornalistas para se manifestar sobre o caso.

Em último lugar no ranking ainda estão os ministros Gustavo Canuto, do Desenvolvimento; Jorge Oliveira, da Secretaria-Geral da Presidência e Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo. Além de Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central.

Procurada pelo Metrópoles, a assessoria do Ministério da Educação não se manifestou até o momento. O espaço segue aberto para posicionamentos.

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