Análise: política desnorteada agrava incertezas na economia do Brasil

Bolsonaro demonstra falta de rumo na condução do país, complica relação com Congresso e aliados se dividem quanto a manifestação no dia 26

Rafaela Felicciano/ MetrópolesRafaela Felicciano/ Metrópoles

atualizado 20/05/2019 8:28

A semana começa com sacolejos na política e expectativas na economia. As últimas manifestações públicas do presidente Jair Bolsonaro (PSL) e de parte dos seus seguidores elevaram o grau de insegurança sobre os rumos do governo. Ao mesmo tempo, atraíram a atenção do mercado financeiro para a situação do país.

Na sexta-feira (17/05/2019), o dólar ultrapassou R$4,10, maior valor desde setembro, auge da campanha eleitoral. O Ibovespa confirmou trajetória de queda e ficou no menor nível do ano. Esses sinais negativos se somaram aos últimos resultados da economia divulgados pelo Banco Central, com preocupante tendência para a estagnação do país.

No que dependem da política, as soluções parecem distantes. O ambiente conturbado ganhou novos elementos nos últimos dias, com a divulgação pelo presidente de uma carta tresloucada, copiada de uma rede social e cheia de insinuações contra as instituições e a economia.

Entre outras provocações, o texto desatinado diz que o Brasil é “ingovernável” sem conchavos políticos. Nessa linha, lança dúvidas sobre a estabilidade da democracia brasileira.

O gesto irresponsável de Bolsonaro desagradou até mesmo aliados representativos, como a deputada estadual Janaina Paschoal (PSL). “O presidente foi eleito para governar nas regras democráticas, nos termos da Constituição Federal. Propositalmente, ele está confundindo discussões democráticas com toma lá, dá cá”, escreveu a parlamentar no Twitter nesse domingo (19/05/2019).

Janaina também se posicionou contra uma manifestação a favor de Bolsonaro convocada para o próximo domingo (26/05/19) por parte de seus seguidores. Na opinião da deputada, essa iniciativa “não tem racionalidade”. Muitos setores ligados a Bolsonaro, como o movimento Nas Ruas, afastaram-se dessa mobilização.

Filho do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), defendeu o ato do dia 26. “Nada mais democrático do que uma manifestação ordeira que cobra dos representantes a mesma postura de seus representados. Estaremos de olho para divulgar os resultados e a conduta dos parlamentares nas pautas que interessam ao Brasil”, escreveu o parlamentar paulista.

A ideia de levar o povo às ruas para apoiar Bolsonaro ganhou adeptos depois da manifestação em defesa da educação feita em mais de 200 cidades do país na última quarta-feira (15/05/2019). A oposição comemorou o sucesso dessa mobilização.

A simples convocação de uma manifestação favorável chama a atenção para a fraqueza política do presidente. Se estivesse forte, não precisaria desse tipo de bajulação. Em uma hipótese pessimista para Bolsonaro, os atos terão baixa participação da população e deixarão o governo ainda mais frágil. Nesse quadro, deve-se levar em conta ainda que o exército virtual do governo começa a ceder terreno, como notado nos últimos dias.

Na semana passada, também causou espanto referências à possibilidade de impeachment feitas pelo presidente e pelo filho Carlos Bolsonaro, vereador no Rio de Janeiro. O desnorteio do Palácio do Planalto na condução da política fica evidente em um momento de fragilidade dos indicadores da economia. Pelos números do Banco Central, se não houver reversão nos rumos, o Brasil caminha para mais uma década perdida, como nos anos 1980, final da ditadura e início dos governos democráticos.

Novo contingenciamento
Do ponto de vista das gerações contemporâneas e futuras, pode-se dizer, trata-se de um fato de grande repercussão negativa – por exemplo na geração de empregos e no aprimoramento da infraestrutura. Nesse sentido, na próxima quarta-feira (22/05/2019), o Ministério da Economia deve anunciar mais um contingenciamento do Orçamento, o que terá mais repercussões negativas, políticas e sociais.

As maiores dúvidas sobre as perspectivas da economia brasileira surgem da dificuldade de relacionamento entre Bolsonaro e o Congresso. Sem a aprovação de medidas que ajudem na arrumação das contas públicas, as chances de retomada do desenvolvimento ficam escassas.

Pela importância do cargo que ocupa, cabe ao presidente agir com maturidade e competência na construção de uma saída para o país. Não foi isso que se viu nos quase cinco meses de mandato. Ao contrário, Bolsonaro parece apostar na desordem.

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