Análise: Lula perde no STF, Glenn depõe na Câmara e Moro some nos EUA

Revelações do The Intercept agitam a política em Brasília e interferem no julgamento do ex-presidente e na viagem do ministro da Justiça

Igo Estrela/MetrópolesIgo Estrela/Metrópoles

atualizado 25/06/2019 22:40

Brasília teve nesta terça-feira (25/06/2019) mais um dia de tensão na política. À tarde, enquanto o jornalista Glen Greenwald (foto em destaque) – do site The Intercept – depunha na Câmara, a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) julgava pedidos de soltura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Ao mesmo tempo em que as duas sessões transcorriam na capital da República, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, cumpria agenda secreta nos Estados Unidos. Separados no espaço, os três episódios estão interligados no tempo e nas conversas vazadas de integrantes da Operação Lava Jato.

Mesmo sem revelar novidades no depoimento, Glenn foi personagem importante tanto no julgamento no STF quanto na viagem de Moro. Os diálogos da Lava Jato revelados nas últimas semanas forçaram tribunal a julgar dois habeas corpus apresentados pela defesa de Lula.

Um dos pedidos de liberdade tinha por base, exatamente, a suspeição de Moro como juiz no processo relacionado ao apartamento tríplex de Guarujá (SP). A publicação das conversas levou o ministro Gilmar Mendes a pedir à Segunda Turma que fosse julgada, nesta terça-feira, a soltura provisória do ex-presidente até a verificação do material divulgado pelo The Intercept.

“Não há como negar relação do caso com fatos públicos e notórios cujos desdobramentos ainda estão sendo verificados”, afirmou Mendes em seu voto, referindo-se aos diálogos vazados. Apesar da posição do ministro em favor de Lula, o pedido de liberdade provisória foi recusado pela Segunda Turma por 3 a 2.

Pressionado pelas conversas divulgadas pelo veículo on-line, Sergio Moro cancelou o depoimento que daria, também na CCJ da Câmara, nesta quarta-feira (26/06/2019). Em vez de prestar esclarecimentos sobre sua atuação na Lava Jato, o ministro da Justiça embarcou para os Estados Unidos sem remarcar a reunião com deputados.

Nos EUA, Moro desapareceu nesta terça-feira sem divulgar a agenda. Apesar da insistência de veículos de imprensa, ele manteve os compromissos secretos. Nos dois dias anteriores, ele fez postagens no Twitter com fotos de visitas à fronteira com o México.

Sem tornar público o roteiro de terça-feira, o ministro deixou margem para especulações sobre os contatos feitos durante a viagem. Empurrado pelo The Intercept para o centro de um escândalo no Judiciário, Moro faz movimentos no sentido de esvaziar – se possível, cancelar – o conteúdo dos arquivos em poder do site.

Um dos objetivos do ministro é provar que as conversas foram obtidas criminosamente por um hacker. Assim, tenta enquadrar o jornalista. Com relações em órgãos de segurança nos EUA, essa é uma oportunidade para Moro buscar caminhos para tentar sair do enrosco em que foi metido por Glenn Greenwald.

Até agora, em nenhum momento, ele desmentiu peremptoriamente os diálogos. Reclamou de hackers, levantou suspeitas de manipulação, mas evitou confrontar-se de frente com as mensagens. Com isso, deixou a impressão de que tudo pode ser verdade.

Na volta ao Brasil, quem sabe, Moro traz novidades dos EUA que lhe ajudem a se livrar do The Intercept. Na Câmara, tramitam pedidos de convocação para que ele dê explicações que desfaçam as suspeitas de parcialidade nos julgamentos de Lula. Pode-se, então, prever que a política em Brasília continuará agitada nos próximos dias.

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