Análise: impunes, “milícias virtuais” desafiam os Três Poderes

Acusações de Joice Hasselmann contra filhos do presidente fornecem novos elementos para investigações sobre crimes políticos na internet

Foto: Igo Estrela/MetrópolesFoto: Igo Estrela/Metrópoles

atualizado 22/10/2019 23:51

Ninguém imagina o mundo sem mentiras. A prática de inventar histórias, distorcer fatos e negar o óbvio se perpetua no tempo e no espaço. Na era da internet, sobretudo, a difusão de falsidades tomou proporções planetárias. Em poucos segundos, uma postagem fantasiosa se espalha pelo mundo sem filtros nem freios.

A proliferação de mentiras adquire importância maior quando voltada para a política. Nesta segunda-feira (21/10/2019), a deputada Joice Hasselmann (PSL-SP) acusou os filhos do presidente Jair Bolsonaro (PSL) de comandarem uma rede formada por 1,5 mil perfis falsos nas redes para difundir fake news e atacar adversários.

Pela agressividade e por agir no submundo, essa turma ganhou o apelido de “milícia virtual”. Quem acompanha a atuação de seguidores de Bolsonaro nas redes sociais e em grupos privados tem razões para, no mínimo, desconfiar que a parlamentar aponta uma pista importante para entender como funciona esse exército de internautas.

Desde a campanha eleitoral de 2018, invenções como “kit gay” e “mamadeira de piroca” se tornaram peças de propaganda voltadas para o público moralista e desinformado. Antes, na época do assassinato da vereadora carioca Marielle Franco (PSol), em março de 2018, ficou evidente a existência de uma máquina de fabricar mentiras.

Uma das falsidades espalhadas dizia que a vítima era casada com um traficante. Outra invenção atribuía a eleição de Marielle ao apoio da organização criminosa Comando Vermelho.

É certo que a propalação de mentiras políticas não foi criada por Bolsonaro e sua turma. A expressão “estelionato eleitoral”, aplicada às reeleições de Fernando Henrique Cardoso (1998) e Dilma Rousseff (2014), traduz a prática abusiva de enganar a população com distorções da realidade.

Mas há uma diferença importante entre o marketing dos programas eleitorais e a atuação da “milícia virtual”. Se quisessem punir as mentiras do tucano e da petista, as autoridades tinham os comandos de campanha para responsabilizar pelos atos irregulares.

No caso do exército digital, fica mais difícil encontrar culpados. Segundo a denúncia de Joice, a máquina de difusão de calúnias envolve perfis falsos e robôs, mecanismos que camuflam a autoria de crimes.

A gravidade da acusação exige resposta das instituições responsáveis pela vigilância e cumprimento das leis. Com esse fim, o Supremo Tribunal Federal (STF) tem um inquérito para investigar fake news. No caso, especificamente, com o objetivo de apurar ataques à própria Suprema Corte.

Também destinada a identificar fake news, o Congresso instalou uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), para onde Joice (na foto em destaque, com o presidente) disse que enviará suas acusações – se é que vai mesmo concretizar o que anunciou. Caso cumpra o prometido, fornecerá informações comprometedoras para os três filhos do presidente: o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e o vereador carioca Carlso Bolsonaro (PSC).

A divulgação de notícias falsas nas eleições de 2018 resultou em centenas de denúncias investigadas pela Polícia Federal. Os inquéritos, no entanto, mostraram-se incapazes de conter a onda de invencionices.

Apesar das iniciativas voltadas para combater o fenômeno que interfere na política e – particularmente – nas eleições, os Três Poderes ainda devem respostas à sociedade sobre como reduzir as distorções provocadas pela “milícia virtual”. A demora em encontrar solução para esses crimes sugere que as mentiras continuarão correndo soltas e, os culpados, impunes. Como sempre.

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