Caso Marielle faz um ano e meio com pedido de federalização; relembre

PGR pediu que apurações sejam conduzidas em âmbito federal. Duas pessoas estão presas, mas possíveis mandantes não foram identificados

JOSE LUCENA/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDOJOSE LUCENA/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

atualizado 18/09/2019 10:52

Há um ano e seis meses, a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes foram assassinados em circunstâncias que ainda não completamente esclarecidas. Duas pessoas estão presas, mas a pergunta que ainda espera resposta é: quem foi o mandante do crime? Nessa terça-feira (17/09/2019), a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, pediu que o caso seja conduzido em âmbito federal, o que será analisado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). Confira abaixo as etapas da investigação:

O assassinato – Março de 2018
A vereadora Marielle Franco, de 38 anos, e o motorista Anderson Gomes, de 39, foram assassinados na noite de 14 de março de 2018, quando o carro onde estavam foi alvo de disparos de criminosos no cruzamento das Ruas Joaquim Palhares e João Paulo I, na região central do Rio. A assessoria Fernanda Chaves, que também estava no carro, sobreviveu. A vereadora havia participado do evento “Jovens Negras Movendo Estruturas” em um espaço na Lapa, tendo sido seguida desde que saiu do local.

A morte causou grande repercussão no país, levando a mobilizações e manifestações em diversas cidades. A reivindicação do protesto foi sintetizado na frase que se repetiu desde então: “Quem matou e quem mandou matar Marielle?”.

Marielle nasceu em 1979 e cresceu no Complexo da Maré, na zona norte do Rio. Formou-se em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio) e fez mestrado em Administração Pública pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Na dissertação para obter o título de mestre, pesquisou as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Foi eleita vereadora do Rio pelo PSOL com 46,5 mil votos – a 5ª maior votação. Estreante na Câmara, participava de comissão para acompanhar a intervenção federal no Rio.

As primeiras suspeitas – Maio de 2018
Em maio de 2018, uma testemunha procurou a polícia para dizer que um policial militar e um ex-PM teriam participado do assassinato. Os suspeitos seriam ligados ao miliciano Orlando Oliveira de Araújo, o Orlando Curicica, que, por sua vez, seria sócio do vereador Marcello Siciliano (PHS), conforme denunciou na época a testemunha.

A testemunha contou que foi coagida a trabalhar com Orlando Curicica. Disse que o vereador e o miliciano se encontraram quatro vezes. Numa delas, Marielle teria sido chamada por Siciliano de “piranha do Freixo”, alusão ao deputado Marcelo Freixo (PSol), com quem a vereadora trabalhou por dez anos na Assembleia Legislativa do Rio antes de se eleger, em 2016 – inclusive durante a CPI das Milícias. O assassinato, pela versão da testemunha, teria como motivação as ações políticas de Marielle em favelas da zona oeste sob o jugo da milícia, segundo a denúncia.

A informação causou grande repercussão e levou à polícia a ouvir Curicica, que já estava preso por outro crime. Ele negou envolvimento no caso e disse ter sido pressionado a confessar envolvimento, o que não ocorreu. Posteriormente, foi transferido para uma penitenciária federal. O vereador Siciliano também negou que tenha participado do assassinato.

A investigação da investigação – Novembro de 2018
O então ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, anunciou no início de novembro de 2018 que a Polícia Federal passaria a investigar a existência de um grupo criminoso articulado para atrapalhar e impedir as investigações do assassinato de Marielle. Na oportunidade, o ministro solicitou a instauração de inquérito policial para apurar o envolvimento de agentes públicos, milicianos e contraventores que estariam atuando em conjunto.

O pedido de atuação da PF foi feito nesta quinta pela procuradora-geral da República, Raquel Dodge, com base em depoimentos de duas pessoas que estariam ligadas ao crime. Curicica disse em depoimento, que foi tomado na penitenciária federal de Mossoró/RN, que a Polícia Civil do Rio não tinha interesse em elucidar o caso e que haveria pagamento de dinheiro a agentes públicos.

“O que se está fazendo é criar um outro eixo que investigará aqueles ou aquelas que estejam dentro da máquina pública – portanto, agentes públicos-, ligados ao crime organizado ou a interesses políticos e que estão tentando impedir que seja elucidado esse crime. Então, em certo sentido, não deixa de ser uma investigação da investigação que está sendo feita”, disse Jungmann na data.

As prisões de Ronnie Lessa e Élcio Queiroz – Março de 2019
Dois dias antes de a execução da vereadora Marielle e do motorista Anderson completar um ano, a Polícia Civil prendeu dois acusados de participação direta no crime: o PM reformado Ronnie Lessa, de 48 anos, e o ex-PM Élcio Vieira Queiroz, de 46. Lessa teria sido o autor dos disparos. Queiroz teria dirigido o carro que levava o assassino.

O crime teria sido planejado de forma meticulosa por três meses. O delegado Giniton Lages, que investigou o caso, informou que nesse período Lessa teria feito pesquisas online não apenas sobre a rotina da vereadora, mas também sobre a de outros políticos da esquerda, como o atual deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ) e sua família, além de autoridades da área de segurança.

Foram ouvidas 230 testemunhas e interceptadas 318 linhas telefônicas. Chegou-se a um intricado rastro de vestígios deixados pelos suspeitos, acompanhando milhares de horas de imagens de câmeras nas ruas. “Foi uma execução sofisticada e que não teve erro por parte dos criminosos”, disse Lages.

Ambos foram denunciados pelo homicídio qualificado de Marielle e Anderson e pela tentativa de homicídio de Fernanda Chaves e continuam presos em penitenciárias federais. A pergunta que surgiu após as prisões, e que permanece até agora, é: houve mandante para o crime?

A prisão de Ferreirinha – Maio de 2019
A Operação Entourage prendeu em maio de 2019 Rodrigo Jorge Ferreira, o Ferreirinha, acusado de mentir para a polícia, obstruindo as investigações no caso da execução da vereadora. No fim de 2017, Ferreirinha teria tido um desentendimento com Orlando Curicica, para quem trabalhou como motorista.

Jurado de morte pelo ex-parceiro, foi Ferreirinha quem procurou a polícia para dizer que o bando de Curicica seria responsável pela morte de Marielle. Ele declarou ainda que o mandante do crime seria o vereador Siciliano. Os dois sempre negaram envolvimento no assassinato. A Polícia Federal chegou a conclusão que Ferreirinha mentiu, atrapalhando as investigações.

A nova denúncia e o pedido de federalização – setembro de 2019
Em seu adeus à Procuradoria-Geral da República, Raquel Dodge denunciou à Justiça o crime de obstrução à investigação dos assassinatos e pediu a federalização do inquérito sobre o mandante do duplo homicídio, alegando “ineficiência” na investigação conduzida na esfera estadual.

O principal alvo da denúncia é Domingos Brazão, conselheiro afastado do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro. De acordo com a PGR, Brazão, aliado a um dos funcionários de seu gabinete, Gilberto Ribeiro da Costa, ao PM Rodrigo Ferreira, à advogada Camila Nogueira e ao delegado da PF Hélio Khristian, atuaram para que as investigações em âmbito estadual ‘passassem longe dos reais autores do crime’. A suspeita de Raquel Dodge é que Brazão possa ser o mandante.

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