Passageiro agredido em metrô no Rio: “Não fiquei cego por muito pouco”
Paulo Vítor Araújo, 36, foi agredido por um homem dentro do metrô, sem qualquer motivação aparente. O caso é investigado como xenofobia
atualizado
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Rio de Janeiro- A agressão ao sushiman Paulo Vítor Araújo, de 36 anos, dentro do vagão de um metrô na zona sul do Rio de Janeiro, fez com que ele quase perdesse a visão. O nordestino estava voltando para casa quando foi acertado repentinamente por um homem de colete vermelho. Em seguida, começou a sessão de violência que só foi interrompida por um outro passageiro que tentou conter o agressor.
“É revoltante, não vou mentir para você. Quando ele estava saindo, disse: ‘É assim que eu trato pessoas como você, dessa forma, na base da porrada’”, disse Paulo Vitor ao Metrópoles.
Toda a agressão foi registrada por câmeras de segurança. O caso aconteceu no dia 7 de junho, por volta das 23h, entre a estação de São Conrado e Antero de Quental, zona sul da cidade.
Após as agressões, o homem recebeu ordem de parada de um segurança do metrô, mas não obedeceu e fugiu do local. Segundo o funcionário, ele não conseguiu contê-lo porque estava sozinho na estação e o agressor estava armado com uma faca.
Paulo sofreu afundamento no assoalho do olho e traumatismo craniano. “Tive que fazer cirurgia de emergência por conta da gravidade da fratura. Coloquei uma placa de titânio abaixo do olho e, segundo o médico, chegou muito próximo da córnea. Não fiquei cego por muito pouco”, conta a vítima.
O sushiman está fazendo fisioterapia, já voltou ao trabalho, mas sente incômodo no rosto por causa da placa. Como ainda está se recuperando, a recomendação é que ele não coma peixes e comidas cruas para não atrapalhar a cicatrização. Função essa que é essencial em seu trabalho, já que precisa provar os alimentos antes de serem servidos.
Xenofobia
Com aparência e sotaques bem característicos de um nordestino, Paulo acredita que tenha sido vítima de um crime de xenofobia:
“Procurei a delegacia e a suspeita é que tenha sido um crime de xenofobia, justamente porque nós não nos conhecemos, nunca vi aquela pessoa na minha vida e, como a delegada é experiente nesses casos, ela acredita que seja xenofobia, justamente porque foi uma agressão de surpresa. Ele nem chegou a ouvir o meu sotaque, não teve diálogo, mas ele disse que tratava pessoas como eu daquela forma”, relatou a vítima.
Paulo saiu do Ceará ainda adolescente, há mais de 20 anos, para morar com um tio e conseguir boas oportunidades de trabalho no Rio. Casado e pai de dois filhos, ele conta que nunca passou por nada parecido.
“Sou muito tranquilo, sou da paz, nunca briguei nem com meus irmãos. Estou no Rio há mais de 20 anos, nunca passei por uma situação como essa e nem sabia exatamente o que era xenofobia. Sabia que era crime, mas não que era relacionado à origem da pessoa. É muito triste pensar que uma pessoa se acha melhor que a outra só porque nasceu no Rio e eu no Nordeste”, disse.
Morador de Niterói, o sushiman conta que sempre gostou de andar de metrô, justamente por ser mais seguro e o meio mais fácil de chegar ao trabalho e voltar para casa. Agora, ele diz ter medo.
“Continuo tendo que andar de metrô, mas agora estou receoso. O abalo é grande, minha família ficou preocupada, fiquei uns dias sem trabalhar e tive gastos extras por conta dos ferimentos”, lamentou.
“Confio na Justiça”
O homem que aparece agredindo Paulo ainda não foi identificado. Em nota, a Polícia Civil informou que a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) investiga o crime de tentativa de homicídio, motivado por xenofobia. Imagens de câmeras de segurança estão sendo analisadas e diligências seguem para identificar o autor.
“Confio na Justiça, no trabalho da polícia e acredito que ele vai ser encontrado. Eu espero que essa pessoa seja identificada e que quem o conhece, denuncie, ligue para o disque denúncia”, disse Paulo. Quem tiver informações sobre o homem que aparece nas imagens, pode ligar para o 21 2253-1177, telefone do Disque Denúncia.
Em nota, o MetrôRio afirmou que os agentes priorizaram o atendimento e prestaram toda a assistência ao passageiro que estava com ferimentos. Ele foi conduzido em um carro da empresa para um hospital e, em seguida, à delegacia. A concessionária forneceu imagens e informações às autoridades policiais para investigação do caso.
Paulo lamentou a abordagem e o fato do homem ter ido embora. “Um agente só na estação, às 23h? Foi deprimente aquela abordagem. Independente de qualquer coisa, isso não vai me impedir de viver na cidade que eu tanto amo.”












