“O abuso da fé”: 6 farsas criadas por João de Deus para se forjar líder espiritual

Livro-reportagem revela como João de Deus inventou uma narrativa para valorizar sua história como operador de milagres

atualizado 14/10/2021 11:10

João de DeusFilipe Cardoso/Especial para o Metrópoles

Goiânia – A história de vida de João Teixeira de Faria, o João de Deus, tem sido alvo de investigações aprofundadas e análises documentais, desde que o escândalo, envolvendo mais de 320 mulheres vítimas de abusos sexuais e estupros cometidos por ele, veio à tona em dezembro de 2018.

Nesta quinta-feira (14/10), o resultado de uma apuração rica em detalhes, relatos e informações extraídas de documentos oficiais será lançado pela editora Globo Livros. A obra “João de Deus – O Abuso da Fé”, de autoria da jornalista Cristina Fibe, desconstrói algumas das narrativas do autoproclamado médium, já condenado a mais de 60 anos de prisão, e demonstra como ele forjou a própria história.

A autora destrincha histórias inventadas e detalha o passado do “curador” criado pelo criminoso.

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1 – Biografia sob medida

O primeiro aspecto, pontuado já no início do livro, é o fato de que João de Deus nunca teve uma biografia imparcial ou que escrutinasse, verdadeiramente, sua vida. Afinal, até os crimes sexuais cometidos por ele serem descobertos, a figura do poderoso médium não inspirava questionamentos, pelo contrário. Tudo que ele dizia era visto como algo irrefutável.

Os livros que existiam, até então, muitos deles vendidos na loja de produtos da Casa de Dom Inácio, fundada por ele em Abadiânia (GO), e publicados em diferentes línguas, foram, na verdade, ou encomendados (escritos por amigos, guias da casa e até um advogado pessoal) ou autorizados, desde que seguissem o que era dito por ele.

Foi se aproveitando disso que João de Deus teria forjado alguns aspectos da própria história, dando um ar mítico para o que, na verdade, possuía explicações bem apegadas à realidade.

2 – Descoberta da mediunidade

“As narrativas não se encontram”, afirma a autora Cristina Fibe, que revela que, no início do levantamento das informações para o livro, a intenção não era, exatamente, mostrar as inconsistências entre o que era dito por João de Deus e o que se mostrava real, mas que isso ganhou força durante a apuração.

Um dos casos mais emblemáticos é sobre como ele teria descoberto o dom da mediunidade. O relato de João de Deus, que consta nas biografias encomendadas por ele, é de que em um dia ensolarado, aos 9 anos de idade, em 1950, caminhando com a mãe por uma estrada de terra, entre Itapaci e o povoado de Nova Ponte, em Goiás, ele previu que uma grande tempestade iria cair e chegou a indicar quais casas seriam derrubadas pela chuva. Mais de 40 teriam desabado.

Numa entrevista gravada em 1987, dada ao apresentador Luiz Antônio Gasparetto, o próprio João de Deus se contradisse e apontou uma outra data. Ele afirmou que a previsão teria ocorrido em 1957, quando ele tinha 16 anos. O relato de um amigo próximo a ele, no entanto, e que o conheceu quando ele tinha 19 anos, joga um balde de água fria sobre tudo isso.

Adedi José Santana, que chegou a ser prefeito de Itapaci por dois mandatos, conta no livro de Cristina Fibe que conheceu João na cidade, em 1960, e que ele ainda não havia descoberto a mediunidade. As recordações do amigo são de uma vida pacata e normal, de banhos de rio, jogos de futebol e de João de Deus sempre dando em cima das meninas.

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3 – Viagens pelo Brasil para curar pessoas

O relato de Adedi se contrapõe, ainda, a uma outra história contada por João. O ex-médium diz que, após descobrir a mediunidade, saiu em viagens pelo Brasil, entre os seus 16 e 23 anos de idade. Ele teria passado por vários estados e cidades do país, fazendo cirurgias espirituais e curando pessoas necessitadas.

Conforme a versão de João de Deus, ele permanecia por um tempo em cada local e, logo, saía – uma estratégia para driblar aqueles que questionavam seus métodos e o chamavam de charlatão. Esse período dos 16 aos 23, porém, coincide com a época em que Adedi diz ter convivido com o amigo em Itapaci, cidade onde ele nasceu, e tinha uma rotina normal de rapaz do interior.

Essa história entra no que Cristina chama de “coisas irrastreáveis”. O trabalho de pesquisa dela, que envolveu sete meses de investigação in loco, entre setembro de 2019 e março de 2020, com várias viagens a cidades por onde João de Deus passou, mais um tempo de análise documental de cerca de 1 mil páginas de processos e inquéritos, não identificou elementos para embasar essa versão da peregrinação de cura do médium pelo Brasil.

4 – Ele dizia ser analfabeto

Repleta de elementos fantásticos, a história contada por João de Deus de si próprio tem, ainda, um aspecto que choca quem toma conhecimento e leva em consideração o homem poderoso que ele se tornou. Trata-se do analfabetismo.

O ex-médium define-se analfabeto, que não sabe ler, nem escrever, o que aumentou ainda mais a curiosidade em torno de sua figura, ao longo do tempo. Nos processos judiciais, no entanto, Cristina Fibe não encontrou informações sobre essa condição.

O que a jornalista percebeu, com a obtenção de cópia de documentos pessoais dele, é que João de Deus consegue escrever tranquilamente. “Algumas pessoas disseram que já o viram escrevendo”, conta.

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5 – Aniversário trocado para dia de São João

Nos mesmos documentos pessoais, consta que a data real de nascimento de João de Deus é 16 de junho de 1941. “A vida que ele gosta de contar”, no entanto, como escreve Fibe, começou no dia 24 de junho de 1942, em um povoado chamado Cachoeira da Fumaça, em Goiás.

Não se sabe o motivo dessa mudança escolhida por ele, mas o ex-médium adotou o dia 24 de junho como sendo a data de seu aniversário e costumava fazer festas grandiosas a cada ano, na Casa de Dom Inácio, em Abadiânia. Inclusive, com presença de políticos, artistas, ministros e famosos, em geral. Essa data sempre foi algo importante para ele.

É dia de São João. O ex-médium escolheu a mesma data para ser dele também.

6 – A razão da escolha de Abadiânia

A determinação de Abadiânia como local para a construção da Casa de Dom Inácio de Loyola também foi envolta por uma narrativa criada por João de Deus.

O médium sempre disse que a escolha da cidade estava associada a uma mensagem psicografada pelo espírito de Bezerra de Meneses, que teria falado até sobre a necessidade de uma cachoeira próxima ao terreno. Essa mensagem foi corroborada, mais tarde, segundo ele, por uma orientação dada por Chico Xavier, em um bilhete datado de 1993.

A realidade, no entanto, é um pouco diferente, conforme a pesquisa feita por Cristina Fibe. João estava enfrentando problemas e sérias acusações de charlatanismo, curandeirismo e exercício ilegal da medicina, nos anos 1970, em Anápolis. Ele precisou recorrer a políticos e amigos poderosos para se proteger e encontrar um novo local para seguir com as cirurgias espirituais.

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Abadiânia, à época, era uma cidade de cerca de 8 mil habitantes, sem uma vocação específica, tampouco uma atividade capaz de melhorar a economia local. Foi um encontro de interesses. João de Deus precisava, urgentemente, de uma nova cidade para atuar e o prefeito de Abadiânia viu nele uma possibilidade de atrair pessoas, aumentar o fluxo e a circulação de dinheiro no município.

Com a promessa de proteção das autoridades locais, sem percalços ou questionamentos sobre sua atividade, o médium instalou-se e fez o que fez em Abadiânia. A cidade foi palco da grande maioria dos crimes cometidos por ele e onde, até 2018, ele passou ileso por tentativas de denúncia e processos na Justiça. Tudo graças à rede de contatos e influência que ele criou, ao longo do tempo.

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