Moradores de Trindade se revoltam e temem novas trocas de bebês

Mulheres que tiveram filhos recentemente no Hospital de Urgências ficaram aflitas com a história que tirou o sono de dois casais da cidade

Foto: Andre Borges/Esp. MetrópolesFoto: Andre Borges/Esp. Metrópoles

atualizado 02/08/2019 10:59

Enviado especial a Trindade (GO) – Falta de atenção e de responsabilidade, perigo e susto. São com essas palavras que moradores de Trindade, município da região metropolitana de Goiânia, distante cerca de 240 km de Brasília, definem a troca de bebês no Hospital de Urgências de Trindade (Hutrin).

O caso virou o principal assunto do município de cerca de 130 mil habitantes, segundo estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Perdeu até mesmo para o típico calorão do inverno goiano, que sempre está na pauta dos encontros de botequins e vizinhos.

Mesmo com o final feliz, os bebês foram destrocados na noite dessa quinta-feira (01/08/2019), quando exames de DNA comprovaram que os recém-nascidos estavam com os pais invertidos, o assunto ecoa no município.

Cidade turística, Trindade é conhecida pela festa Divino Pai Eterno. Neste ano, cerca de 3 milhões e 200 mil romeiros passaram pelo município nos 10 dias da tradicional comemoração católica.

Mulheres que tiveram filhos recentemente no local ficaram aflitas com a história de Genésio Vieira, 43 anos, Pauliana Maciel, 27, Murilo Lobo, 22, e Aline Alves, 20, que tiveram seus bebês trocados em 9 de julho.

Nessa quinta-feira (01/08/2019), a maternidade do Hutrin voltou a funcionar. Ao longo do dia, um sem número de mulheres passaram pelo local com seus bebês. Alguns, recém-nascidos. Todas traziam no peito um sentimento: desconfiança.

Há 15 dias, a auxiliar contábil Franciele Vasconcelos, de 30 anos, passava pelo mesmo centro cirúrgico que Pauliana e Aline. Na quinta-feira (18/07/2019), ela deu à luz a uma menina. Com a notícia da troca de bebês ocorrida nove dias antes, ele ficou aflita.

“Fica um aperto no peito. Quando fiquei sabendo, logo pensei: ‘poderia ser eu’. Mãe nenhuma merece passar por uma situação dessas. Todo esse problema foi causado por falta de responsabilidade”, criticou, antes de entrar no Hutrin para retirar os pontos da cesárea.

A nora da dona de casa Ana Flavia Teixeira, 44, Jaquelibe Cavalcante, 22, passava por uma consulta médica quando ela conversou com a reportagem do Metrópoles. A família ficou aterrorizada. “O coração dispara. E se fosse no dia 18, quando meu neto nasceu? Será que teríamos coragem de destrocar?”, questiona.

Ela acredita que a falha deve ser corrigida. “Penso que deve ter mais atenção com os pacientes. Tem muita criança e poucos pacientes. Vi como as mulheres são tratadas e como é o atendimento lá dentro”, conclui a dona de casa, que mora há 16 anos em Trindade.

Nos corredores do hospital, um sem-número de pessoas comentam o caso. A atende de farmácia Daiana de Moraes, 30, recebeu alta do Hutrin nessa quinta-feira (01/08/2019). Ela passou por uma laqueadura — cirurgia de esterilização feminina.

Ao deixar a unidade médica, ela comentou sobre o clima. “Fala-se que foi falta de atenção. Todos estão assustados com o assédio”, conta. Daiana tem um filho de 8 anos e um casal de gêmeos de 3 que nasceram no local. “Um caso desses é que enlouquecer qualquer mãe e não é a primeira vez”, pondera.

Daiana tem razão. Duas mães passaram por uma situação semelhante em agosto de 2017 no mesmo hospital. Contudo, na ocasião, o erro foi confirmado em menos de 24 horas e as crianças logo foram destrocadas.

Se muitos criticam o hospital, há pacientes que saem na defesa. É o caso do casal Lorena Gonçalves, 27, e Edinan Alves, 30. O filho deles nasceu no último dia 18. “Foi tudo normal. Não houve nenhum transtorno”, conta o empresário.

No entanto, a dona de casa acredita que a troca de bebês foi um caso pontual. “Isso foi um acidente. Meu primeiro filho nasceu aqui há 3 anos e não tive problemas. Agora, novamente. Acho que tudo se resolverá e que o hospital vai fortalecer o protocolo de segurança”, frisa.

Versão oficial
Apesar da repercussão negativa, a secretária Municipal de Saúde, Branca Ferreira, disse que o governo local não pode fazer nada pelas gestantes da cidade. “Não temos gerência sobre o hospital por ele ser estadual e administrado por uma organização social. O estado que deve dar explicações”, resume.

O Metrópoles entrou em contato com o secretário Estadual de Saúde, Ismael Alexandrino, mas ele não respondeu os questionamentos. Ele foi diretor-presidente do Instituto Hospital de Base do Distrito Federal (IHBDF) durante a gestão do ex-governador Rodrigo Rollemberg (PSB).

Em nota, a Secretaria de Estado da Saúde de Goiás destacou que cobrará esclarecimentos da organização social que gere o hospital. “O contrato de gestão tem metas de produção e qualidade a serem atendidas. Entendemos que o ocorrido afeta a segurança e a qualidade dos processos assistenciais da unidade”, finaliza o texto.

Uma técnica em enfermagem do berçário do Hutrin é investigada pela Polícia Civil de Goiás como a responsável pela troca. Ela não teve o nome divulgado. Segundo Renata Vieira, chefe da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA) de Trindade, ela negou qualquer falha no atendimento de Pauliana e Aline.

Segundo o porta-voz do Hutrin, Hemiltom Prateado, o hospital investigou preliminarmente e fez uma mudança de protocolo. Uma sindicância foi aberta e a apuração está em curso, por isso ainda não é possível detalhar o que ocorreu naquele dia. Contudo, de acordo com o porta-voz, o hospital acredita que a troca tenha ocorrido somente entre os dois bebês.

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