TRF julga recurso para indenizar famílias contaminadas por pesticida
Desastre ambiental com “pó de broca” na Cidade dos Meninos, em Duque de Caxias (RJ), ocorreu há quase 60 anos
atualizado
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Quase seis décadas depois, um dos casos mais antigos de contaminação ambiental no Rio de Janeiro ganha um novo capítulo na Justiça nesta quinta-feira (13/12). O Tribunal Regional Federal (TRF) da 2ª Região deve apreciar o recurso para estabelecer indenização por danos morais em 1ª instância para dezenas de famílias moradoras da “Cidade dos Meninos”. A área de 19 milhões de metros quadrados, no Distrito de Campos Elíseos, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, virou uma maldição para cerca de 2 mil moradores, após a descoberta de contaminação por pesticidas.
A esperança para as vítimas do “pó de broca” – como é conhecido o hexaclorociclohexano (HCH), um dos agentes contaminantes encontrados na região – é de um desfecho do caso que possibilite a elas reconstruir suas vidas. O advogado Leonardo Amarante, que representa diversas famílias de vítimas que até hoje lutam por indenizações, ressalta o descaso com o sofrimento delas. “Já se passaram 58 anos desde a desativação da fábrica e ainda existem famílias sofrendo. Isso é um completo desrespeito à vida humana. São gerações que sofrem juntas. Até quando?”, indagou.

O desastre ambiental começou em 1950, com a criação de uma fábrica de pesticida pelo antigo Ministério da Educação e Saúde, implantada nos arredores de Duque de Caxias. Na área já existia a Cidade dos Meninos, amplos espaços ocupados por construções para abrigar órfãos carentes e em regime de internato. Na mesma época, a pasta criou na região o Instituto de Malariologia, que foi o ponto de partida para a inauguração da fábrica de HCH, o pó de broca, além da manipulação de outros compostos presentes em pesticidas.
O objetivo era o controle de endemias transmitidas por vetores, como febre amarela, malária e doença de Chagas. No entanto, o governo passou a importar estes pesticidas e, em 1956, a fábrica foi desativada. Por volta de 1983 foi descoberta a venda clandestina do pó de broca na feira livre de Duque de Caxias, produto que havia sido abandonado na fábrica. A principal destinação da substância era para cobrir buracos na estrada, fazer aterros, rebocar casas, ou como fertilizante. Cerca de 300 toneladas do pó químico passou então a contaminar o solo, a água, as plantações, os animais e, principalmente, os moradores.
Relatórios do Ministério da Saúde, feitos entre 2001 e 2002, constataram que resíduos do HCH foram disseminados pelo ar, pela água da chuva e pelo solo. Seis anos antes, uma empresa foi encarregada de descontaminar a área. Os responsáveis tentaram resolver o problema aplicando cal virgem sobre o solo, o que resultou na ampliação da área contaminada e gerou subprodutos ainda mais nocivos. Nenhuma solução foi encontrada depois.
Em 2005, após uma pesquisa feita pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), ficou constatada a contaminação de cerca de duas mil pessoas. Em 2016, o governo federal anunciou um projeto para descontaminar a área, com início dos trabalhos previsto para começar em março daquele ano. O projeto, que custaria à prefeitura do município e ao Ministério da Saúde cerca de R$ 90 milhões, nunca saiu do papel.As famílias que habitavam a região de maior contaminação por HCH foram removidas e a área isolada com cercas e placas, mas vários moradores ainda burlam a regra e fazem incursões por lá. Muitas famílias ainda moram nos arredores, grande parte servidores aposentados, empregados da construção civil, comerciantes e agricultores. A maioria nunca recebeu uma casa nova para morar e poder, enfim, deixar a área de contaminação na Cidade dos Meninos. Várias ações de remoção de moradores foram efetuadas no local nos anos seguintes.
O maior impasse nas ações judiciais movidas pelos moradores é que, como a área pertence ao governo federal, o conflito ambiental envolve também uma série de questões políticas, que faz com que os moradores sejam vistos aos olhos da lei como posseiros. A reportagem tentou contato com o Ministério do Meio Ambiente, com o Ministério da Saúde, mas as pastas ainda não comentaram o assunto.
Descontaminação
A Fundação Oswaldo Cruz se reuniu, em abril deste ano, com representantes do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e dos ministérios da Saúde e do Meio Ambiente para debater o desastre ambiental de Caxias. Os representantes discutiram a implementação de ações para descontaminar a região. Quatro iniciativas foram apresentadas, com a expectativa de cooperação entre os órgãos para encontrar uma solução definitiva. A Fiocruz foi questionada sobre o assunto, mas ainda não deu resposta.
Um mal silencioso
O pó de broca é proibido no Brasil há ao menos duas décadas. A substância é suspeita de causar aborto espontâneo, má formação, o desenvolvimento precoce de doenças neurológicas, além de alguns tipos de câncer.



















