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O Dia das Mães não será festivo para uma parte significativa das mulheres brasileiras. A mesa do almoço terá um lugar vazio na casa de quem perdeu filhos para a violência. No mesmo mês, Salvador (BA) sediará o III Encontro Nacional de Mães e Famílias vítimas do Estado, de 16 a 21 de maio.

O objetivo é preservar a memória dos mortos por violência policial e de pessoas presas injustamente para, assim, evitar o esquecimento dos casos. O evento reunirá movimentos sociais de todo o Brasil em debates, palestras e rodas de conversa, entre outras atividades.

Também era maio, dia 14, quando Ana Paula Gomes de Oliveira, 41 anos, viu pela última vez o filho Johnatha de Oliveira Lima, 19. Ela havia feito um pavê e pediu ao garoto para levar a sobremesa à casa da avó, na favela de Manguinhos, na zona norte do Rio de Janeiro.

O rapaz saiu de casa, deixou o doce com a avó e se despediu. A matriarca quis saber se o menino carregava o RG, pois tinha ouvido que a polícia abordava moradores da comunidade com truculência já usual. Ele confirmou a posse do documento e seguiu para encontrar a namorada, na mesma favela.

Quando voltava para junto da mãe, Johnatha passou por uma rua onde ocorria confusão entre moradores e policiais. Crianças atiravam pedras nos agentes, que reagiram com tiros. Um deles acertou as costas do filho de Ana Paula.

Arquivo Pessoal

Johnatha, com a mãe na foto, tinha 19 anos e morreu com um tiro nas costas

 

“São histórias que se repetem. Quando uma mãe se levanta do luto à luta, nossa voz chega a quem tem preconceito e acha que todos os jovens pobres e pretos mortos nas favelas são bandidos e merecem esse fim”, afirma Ana Paula.

Nossos filhos eram jovens saudáveis cheios de sonho. Saíram de casa cheios de vida e foram devolvidos às famílias em caixões. Não é natural"
Ana Paula

Apesar dos conselhos para não buscar justiça, pois seria inútil, Ana Paula uniu-se a outras mães de Manguinhos que perderam os filhos de formas semelhantes. Elas tornaram-se voz ativa e clamam pela punição dos culpados. Sete delas pretendem ir ao  Encontro Nacional de Mães e Famílias Vítimas do Estado, mas não têm condições financeiras.

 

As mulheres iniciaram uma vaquinha virtual para arrecadar dinheiro e bancar custos de deslocamento e estadia das participantes. Passagem, hospedagem e alimentação, por pessoa, saem a cerca de R$ 1 mil. A intenção é arrecadar R$ 7 mil. É possível contribuir com qualquer valor.

“Participar do encontro é importante para olharmos nos olhos umas das outras e nos damos força. Estar lá é uma forma de continuar cuidando dos nossos filhos, de não deixar que nos tirem o direito de exercer a nossa maternidade”, explica Ana Paula.

A mãe de Johnatha não perdeu a esperança de ver condenado o assassino do filho, apesar da morosidade do sistema de justiça. O crime ocorreu em 2014 e, até o momento, nenhum culpado teve punição. Um juiz determinou que o policial fosse a júri popular, em 2016. A defesa entrou com um recurso. Ainda não houve decisão.

“Colocar essa dor para fora é o que me mantém de pé”, diz a mãe de Johnatha

 

“No dia em que o juiz avaliaria o pedido da defesa, no fim de 2017, o advogado foi ao tribunal sem gravata. O desembargador se recusou a julgar o caso por esse motivo. Saí de lá decepcionada com esse deboche, com o descaso”, lembra Ana Paula, entre lágrimas.

Segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP), 6.731 pessoas foram assassinadas em 2017, no estado do Rio de Janeiro. Desse total, 1.124 mortes foram causadas pelas polícias, nos chamados “autos de resistência”.

Preciso colocar essa dor para fora, é isso que me mantém de pé"
Ana Paula

Um jovem negro corre 2,7 vezes mais riscos de vir a ser vítima de homicídio do que uma pessoa branca da mesma faixa etária no Brasil, segundo relatório divulgado em 2017 pela Unesco, o órgão para a Educação, Ciência e Cultura da Organização das Nações Unidas (ONU).

“Não podemos achar que essas mortes são meras estatísticas. Cada uma delas representa uma vida perdida e uma família que chora. É sempre uma mãe negra que fecha o caixão ou vai visitar seu filho no sistema carcerário”, diz a nota divulgada pelo movimento Mães de Manguinhos.

São Paulo foi palco do primeiro Encontro Nacional de Mães e Familiares Vítimas do Estado em 2016. O segundo ocorreu em 2017, no Rio de Janeiro. Uma das anfitriãs na Bahia será Rute Fiúza, mãe de Davi Fiúza, desaparecido aos 16 anos após abordagem policial em Salvador, em 2014. Quatro anos depois, ela ainda espera respostas sobre o paradeiro do garoto.

Davi Fiúza tinha 16 anos e desapareceu após uma abordagem policial

 

Outras mulheres que desejam participar do encontro, representadas pelo movimento Mães de Maio, também iniciaram uma campanha de financiamento coletivo:

 

Relembre casos de jovens mortos pela polícia: