Indígena que perdeu o pai para a Covid-19 reclama da omissão do governo

Governo federal enviou militares e médicos para ações de saúde em aldeia Guajajara no Maranhão, em ação que foi acompanhada pelo Metrópoles

atualizado 10/10/2020 22:38

mortes tribos indigenas maranhao covid-19 coronavirus 7Igo Estrela/Metrópoles

O Brasil tem sido alvo de críticas de organismos internacionais, líderes de países europeus e ambientalistas pela fragilidade das ações para proteger os povos indígenas, mais vulneráveis ​​na pandemia de coronavírus. Obrigado pelo Supremo Tribunal Federal a adotar medidas concretas para impedir o avanço do contágio, o governou colocou as Forças Armadas para coordenar a resposta.

A reportagem do Metrópoles viajou como convidada em um voo da Força Aérea Brasileira (FAB) para acompanhar a 3ª fase da Operação Maranhão, ocorrida entre 29 de setembro e 6 de outubro na aldeia de Morro Branco, no município de Grajaú (MA).

Em conversas com os convidados dos militares, líderes do povo Guajajara avaliam como positiva as operações de apoio do Poder Público, mas é possível perceber que ainda há desencontros entre as expectativas dos povos e as ações. Assim que agentes da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde, chegaram à aldeia, a intérprete que fazia a tradução do tupi para o português à equipe de militares e jornalistas, Ythai Guajajara, relatou as dificuldades dos indígenas da região.

Ythai conta que perdeu o pai para o novo coronavírus e diz que as medidas de prevenção contra a doença foram feitas pelos próprios indígenas no início da pandemia. “São ações bem paliativas, que não atendem todos os territórios. Eu também faço parte da outra terra indígena, Bacurizinho, na região do bananal, e infelizmente não vieram porque é difícil o acesso”, relatou.

Durante assistência dos profissionais de saúde da Sesai na região considerada a menor área indígena do Brasil, Ythai conta que a população não teve uma resposta no início, e ficou sem saber qual seria o tratamento específico para a Covid-19. “Hoje, nós vivemos uma realidade mais crítica do que antes. A Funai só distribuiu cestas básicas, está fragilizada desde que foi reestruturada”, lamenta a intérprete indígena.

O cacique da aldeia, Cacique Marciliano Guajajara, tenta passar uma imagem mais positiva que Ythai. A liderança indígena acredita que os militares fizeram um bom controle no início da pandemia e impuseram barreiras na entrada do território para evitar a disseminação do vírus. “Tivemos um resultado positivo. Aqui são 20 aldeias, com 1.228 pessoas e só dois infectados”.

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O diretor da Sesai, Robson Santos, diz que a secretaria vem prestando serviço diretamente nas aldeias e não há subnotificação de casos. “O indígena que está sob responsabilidade direta do governo federal são os aldeados, os demais estão sob responsabilidade de estados e municípios.”

De acordo com a secretaria, morreram 447 índios por Covid-19 entre os mais de 800 mil indígenas do Brasil. O órgão ainda estima que a taxa de letalidade para casos decorrentes do coronavírus, acabou sendo muito menor do que o esperado, de 1,5%.

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As entidades que representam os indígenas questionam as contas do governo. Para a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), deixar de considerar os indígenas que adoecem fora das aldeias é uma maneira do governo de esconder os números. Nas contas da entidade, são 35.213 mil casos confirmados e 839 mortes em 158 etnias. É quase o dobro do apurado pelo Ministério da Saúde.

O governo responde ao coronavírus entre os indígenas com uma operação conjunta de Ministério da Defesa, Ministério da Saúde e Ministério da Justiça e Segurança Pública. Na ação acompanhada pela reportagem, índios Guajajaras no Maranhão passaram por testes rápidos para a detecção da Covid-19 e passaram por consultas de clínica médica, ginecologia, pediatria e odontologia. Além disso, houve distribuição de medicamentos e equipamentos de proteção nas aldeias.

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