“Ficamos paralisados no caminhão”, diz sobrevivente de Brumadinho

Seu irmão, que era soldador da Vale, não sobreviveu ao desabamento. A família ainda procura o corpo, soterrado pela lama

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atualizado 05/02/2019 13:30

Enviados especiais a Brumadinho (MG) – “Na hora certa e no lugar certo”. É assim que o motorista Ronaldo Aparecido dos Santos, 54 anos, define a forma como sobreviveu ao rompimento da barragem I da Mina Córrego do Feijão, que pertence à Vale. Motorista há 14 anos, ele aguardava para carregar o caminhão quando a lama soterrou o complexo administrativo da empresa. Ronaldo estava a 100 metros da barragem quando viu a poeira subir.

O motorista tentou alertar os funcionários pelo rádio, mas o sinal já havia caído. “Vi o caminhão fugindo da lama. O impacto foi tão forte que não deu prazo para correr. Aqueles que conseguiram escapar, já estavam próximo ao mato”, explicou Ronaldo.

“Ficamos paralisados dentro do caminhão vendo a cena. É como se tivessem amarrado as minhas mãos, as minhas pernas e eu não pudesse fazer nada. Não vi meus amigos por cima da lama, mas eu tinha certeza que eles estavam mortos embaixo dela”, desabafou.

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Simulação
Um colega do motorista seguia para a Mina quando ouviu o barulho. Incrédulo, ele chamou Ronaldo no rádio e perguntou se aquilo era uma simulação. “Eu falei que era real. Matou todo mundo. Ele começou a chorar no rádio sem acreditar”, relatou.

De acordo com os trabalhadores, há um mês todos passaram por um treinamento. Na simulação, a sirene tocou e os responsáveis pela segurança explicaram que todos deveriam ir para os pontos de apoio em caso de emergência.

Na última semana, o presidente da Vale, Fabio Schvartsman, afirmou que as sirenes de alerta da Mina do Feijão não foram acionadas no momento do rompimento da barragem devido à velocidade da lama.

“Aqui aconteceu um fato não usual. Houve um rompimento muito rápido da barragem. A sirene que ia tocar foi engolfada pela quebra da barragem antes que ela pudesse tocar”, disse o executivo.

Busca
O soldador Rogério Antônio dos Santos, irmão de Ronaldo, trabalhava na oficina da Vale no momento da tragédia. O corpo segue desaparecido. “Eu acho que não deu tempo do meu irmão ver nada. Ele trabalhava exatamente embaixo da barragem. Já estive no IML várias vezes atrás de notícias. Toda vez que o telefone toca eu sofro, penso que alguém o encontrou”, disse. “Agora, ele está enterrado, mas não é no local certo. Temos que tirá-lo de lá, fazer um enterro digno, nos despedir”, completou.

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