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Diferentemente do pleito de 2014 e anteriores, as eleições deste ano não foram favoráveis para partidos tradicionais e candidatos veteranos no cenário político nacional. Nomes como os emedebistas Romero Jucá (RR), Eunício Oliveira (CE) e Edison Lobão (MA) e o tucano Marconi Perillo (GO), por exemplo, perderam a disputa eleitoral após triunfo de adversários no primeiro turno. Para o ex-ministro da Controladoria-Geral da União (CGU) Jorge Hage, esse resultado não decorre apenas de envolvimento deles em casos de corrupção, mas também de uma “onda de apelo a soluções autoritárias e irracionais”, um movimento que na visão de Hage “levou a uma imensa votação em Jair Bolsonaro”.

“Não foi o tema da corrupção, o envolvimento ou não com a Lava Jato, o único fator (ou mesmo o principal) que acabou definindo a sorte dos candidatos. Aconteceu nesta eleição em particular algo muito mais amplo”, destacou. “Foi uma tendência, um movimento com vários componentes. Entra aí uma tendência à negação da política, isso é muito perigoso, pois a negação da política é a porta aberta para o autoritarismo, a ditadura, a truculência, etc”, completou Hage.

Além disso, na avaliação do ex-CGU, soma-se a esse processo comportamental “o que chamo ‘ilusão do novo’. O que acaba sendo esse ‘novo’? Isso irá resolver todos os problemas? É o Luciano Huck? Ou outras figuras desse tipo? São os tais Kim Kataguiris? Ou é o Bolsonaro, deputado há 27 anos?”, questionou.“Seja de um tipo ou de outro, nós já vimos no que dá apostar nos tais ‘salvadores da pátria’. Basta lembrar-se do Collor!”, completa o ex-ministro.

Exemplo desses reflexos, de acordo com Hage, é a renovação do Congresso. Cerca de 50% da Câmara dos Deputados será composta por novos parlamentares. Contudo, para ele, a configuração do cenário para 2019 não é necessariamente positiva. “Basta ver que no Senado, por exemplo, a bancada da bala passou de zero para 18 senadores… Precisa dizer mais alguma coisa?”, enfatizou.

Ao ser questionado sobre o combate a casos de corrupção no país, Hage respondeu que o Brasil tem apresentado avanços. A Lava Jato, segundo ele, é a resultante de um “conjunto de medidas construídas nas duas últimas décadas”, incluindo o fortalecimento e autonomia das instituições como o Ministério Público Federal (MPF), Polícia Federal (PF) e a CGU. E também com a aprovação de leis responsáveis por permitir investigações de tudo “o que sempre ficava na sombra”. O ex-ministro citou duas novas normas: a lei anticorrupção e a contra as organizações criminosas.

No entanto, Hage esperava que a questão fosse abordada de forma prioritária nos debates dos candidatos na disputa do comando do Palácio do Planalto. “Cheguei a ter esperança que o tema da corrupção desempenhasse um papel mais central na eleição deste ano. Mas isso não ocorreu. Nem nos debates dos presidenciáveis. E muito menos nas escolhas para o Congresso”, lamentou.

Veteranos fora do Congresso
A lista de nomes que passam a ficar fora do cenário político nacional conta com o atual presidente do Senado Federal, Eunício Oliveira (MDB-CE). Ele tentou reeleição, mas não recebeu votos suficientes e perdeu o posto. Após apuração das urnas, Eunício ficou na terceira colocação, atrás de Cid Gomes (PDT) e Eduardo Girão (Pros), ambos eleitos pelo estado do Ceará. O emedebista anunciou nesta semana que deixará a vida pública: “recolho-me agora à vida pessoal”.

Sem foro, Eunício Oliveira terá investigações contra ele passando para a primeira instância. A Polícia Federal investiga o parlamentar a partir de delações de executivos e ex-executivos da Odebrecht. A PF apura se ele recebeu propina da construtora em troca de aprovação de medida provisória, em 2013, que tratou de incentivos tributários a produtores da indústria química. Apelidado de “Índio” nas planilhas da Odebrecht, Eunício é suspeito de ter recebido R$ 2 milhões em propina.

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Romero Jucá (MDB-RR) também tentou ser reeleito, porém não obteve êxito no primeiro turno. Ele perdeu a segunda vaga ao Senado para Mecias de Jesus (PRB-RR). O senador, que atua na Casa desde 1994, deixou o Ministério do Planejamento na gestão de Michel Temer após divulgação de áudios supostamente sugerindo obstrução na Operação Lava Jato. Além disso, o emedebista é réu por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no Supremo Tribunal Federal (STF).

RAFAELA FELICCIANO/METRÓPOLES

Ex-ministro de Minas e Energia do governo Dilma e ex-governador do Maranhão, o senador emedebista Edson Lobão (MDB-MA) também não conseguiu manter a vaga no Senado. Além do desgaste que todos os integrantes da gestão da petista tiveram com o impeachment, Lobão é acusado pela Lava Jato de ter recebido R$ 5 milhões em propina da Odebrecht, enquanto ministro, supostamente para interferir na concorrência pela Usina Hidrelétrica de Jirau. Acabou a corrida eleitoral na quarta posição.

MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL

Quatro vezes governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB) amargou a quinta colocação da disputa ao Senado Federal por seu estado natal. A derrota é creditada ao fato de ele ter virado réu em setembro, acusado de corrupção passiva, por supostamente ter recebido recursos ilícitos para beneficiar a Delta em contratos entre 2011 e 2012. Os goianos elegeram Vanderlan (PP) e Jorge Kajuru (PRP).

BETO BARATA/PR


Família Sarney

Um dos grandes nomes da família Sarney – que possui tradição no segmento político – ficou de fora do segundo turno do pleito deste ano. Filho do ex-presidente José Sarney e ex-ministro de Michel Temer, Sarney Filho – o Zequinha Sarney – ficou na terceira posição da corrida ao Senado pelo Maranhão. Foi preterido pelos maranhenses, que elegeram Weverton (PDT) e Eliziane Gama (PPS) como os próximos representantes do estado na Câmara Alta.

MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL

Roseana Sarney também perdeu nas urnas. Ela ficou em segundo lugar na disputa pelo governo do Maranhão. O vencedor da corrida eleitoral foi Flávio Dino (PCdoB), que conseguiu reeleição.

MÁRCIO FERNANDES/ESTADÃO CONTEÚDO

Dilma Rousseff
Presidente eleita no pleito de 2014 e alvo de processo de impeachment em 2016, a petista Dilma Rousseff vinha sendo considerada escolha certeira para o Senado por Minas Gerais e liderou as pesquisas de intenção de voto durante a campanha eleitoral. Contudo, no domingo (7/10), foi preterida pelos eleitores mineiros, que elegeram Rodrigo Pacheco (DEM) e Carlos Viana (PHS).

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