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O dólar turismo manteve na quinta-feira (7/6) firme trajetória de alta e chegou a passar da marca de R$ 4,30 nas casas de câmbio para a compra no cartão pré-pago. Pelo papel moeda, turistas de viagem marcada pagavam R$ 4,19, em média, segundo levantamento feito pela startup Meu Câmbio. Na quinta, o dólar comercial fechou o dia cotado a R$ 3,91, a maior cotação em mais de dois anos.

Segundo Mathias Fischer, diretor de estratégia e inovação da Meu Câmbio, os viajantes já perceberam que a estratégia de “esperar baixar” pode pesar mais no bolso e estão antecipando as compras. “As pessoas estão se antecipando para fugir das novas altas e da alta temporada.”

O cartão pré-pago, que andava em desuso por ter sido equiparado ao cartão de crédito, deve ressurgir nesse momento de oscilação do câmbio, segundo fontes do mercado de câmbio. Isso porque, apesar de a opção exigir o pagamento de 6,38% de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), assim como o cartão de crédito, o valor carregado pelo turista não sofre mais variação de câmbio.

“O pré-pago foi erroneamente equiparado ao cartão de crédito”, explica o superintendente de varejo do Grupo Confidence, Juvenal dos Santos. “As pessoas estão começando a entender agora essa facilidade de programação.”

Mudança de planos
Além da “corrida” pelo dólar de quem já está de passagem marcada, Fischer notou uma busca por moedas “alternativas” — a mais procurada, no momento, é o peso chileno, onde a temporada de esqui está para começar.

Entre os que trocaram a Europa pelo Chile está o jornalista Victor François, de 27 anos. Ele iria visitar familiares na França — um destino para o qual viaja todos os anos. Em 2018, no entanto, optou pelo Chile. “Só a passagem (para Paris) beirava os R$ 6 mil. Mesmo tendo de pagar hospedagem no Chile, a viagem vai sair mais barato. O câmbio é muito mais favorável do que na Europa.”

Mesmo quem não pode mais trocar de itinerário está refazendo as contas. Desde 2017, a advogada Ana Amaral vinha fazendo as contas para cursar um mestrado na Europa, a partir deste ano. Seu planejamento, no entanto, contava com o euro a R$ 4. Agora, com a moeda a R$ 4,55, algumas mudanças de plano foram necessárias.

O custo fixo projetado pela advogada, de € 1 mil por mês para os 12 meses de permanência no exterior, acabou de ficar R$ 6 mil mais caro ao longo do ano. Diante da nova realidade do câmbio, a viagem que será feita durante as férias do curso, que incluiria para dois países próximos, agora terá apenas um, onde ela se hospedará na casa de amigos.

Mercado de turismo
Enquanto alguns mudam de destino e outros reduzem o itinerário, há quem simplesmente está cancelando os planos de viagem. “O planejamento de viagens para o segundo semestre sofreu uma freada brusca. É quase como se estivéssemos congelados”, explica a agente de viagens Lucyene Zucalá, da empresa All Brazil. Com o comportamento do dólar nos últimos tempos, Lucyene diz que o movimento da agência está entre 30% e 40% menor do que o esperado para essa época do ano.

A Associação Brasileira de Agências de Viagem (Abav), porém, minimiza o impacto imediato do câmbio para os negócios. A entidade afirma que as vendas estão dentro do esperado para as férias de julho. A Abav informou, no entanto, que 65% dos destinos procurados são nacionais e não são afetados diretamente pela atual oscilação do câmbio.

Outra justificativa da associação para que a alta do dólar não afete tanto as agências de viagens é que a cotação não impacta no preço dos pacotes, “pois muitas agências e operadoras trabalham com o dólar congelado na data do fechamento, valor que, parcelado e em reais, acaba por diluir a diferença”.