Coronel Ustra, ex-chefe do DOI-Codi durante a ditadura, morre em Brasília

Primeiro militar a ser reconhecido pela Justiça como torturador, ele lutava contra um câncer e estava na UTI do Hospital Santa Helena

O coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, 83 anos, morreu na madrugada desta quinta-feira (14/10) no Hospital Santa Helena. Ele lutava contra um câncer de próstata e estava na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) desde 24 de setembro. Ustra era submetido à quimioterapia e apresentava baixa imunidade. Boletim médico divulgado ao meio-dia aponta como causa direta da morte a falência múltipla de órgãos por grave quadro de pneumonia. Em abril, ele havia sido levado ao Hospital das Forças Armadas (HFA) com suspeita de infarto, após um mal-estar.

Carlos Alberto Brilhante Ustra, ao depor para a Comissão Nacional da Verdade, em Brasília

Gaúcho de Santa Maria, radicado em Brasília, morador do Lago Norte, Ustra foi o primeiro militar a ser reconhecido pela Justiça como torturador. Nos três anos e quatro meses em que comandou o Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), em São Paulo, durante a ditadura militar, 502 pessoas teriam sido torturadas no local e 50, mortas pelo órgão. Ustra sempre negou as acusações, apesar dos inúmeros relatos de ex-presos e até de ex-agentes registrados em documentos e livros.

Em outubro de 1985, a então deputada (e atriz) Bete Mendes reconheceu Ustra como seu torturador. À época, ele era adido militar no Uruguai.

Na condenação de 2012, Ustra foi sentenciado a indenizar familiares das vítimas. Já em dezembro de 2014, o nome do militar foi incluído entre os 377 responsabilizados por mortes no regime em relatório final da Comissão da Verdade. No mesmo mês, ele foi um dos militares denunciados pelo Ministério Público Federal (MPF) pela morte do militante político Hélcio Pereira Fortes, em 1972.

O militar chegou a afirmar, em depoimento à Comissão Nacional da Verdade, que a presidente Dilma Rousseff participou de “organizações terroristas” para implementar o regime comunista no país entre as décadas de 1960 e 1970. Neste período, ela integrou as organizações Política Operária (Polop), Comando de Libertação Nacional (Colina) e Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), que iam contra a ditadura.

Excessos
Em entrevista ao jornal Zero Hora, há pouco mais de um ano, Ustra admitiu, pela primeira vez publicamente, que “excessos” podem ter sido cometidos no período da repressão. Ele assumiu que usava o codinome de Doutor Tibiriçá e que também participava dos interrogatórios de militantes presos pelo regime. O militar demonstrava convicção ao defender ter cumprido sua missão, evitando, assim, que o comunismo fosse implantado no Brasil.

O coronel e um de seus livros, “Rompendo o Silêncio”

Ustra lançou dois livros: “Rompendo o Silêncio” e “A Verdade Sufocada”. Perguntado certa vez sobre o motivo pelo qual havia se aventurado como escritor, foi categórico: “Mesmo na ativa, resolvi escrever o livro (“Rompendo o Silêncio”) para me defender, para defender a minha família, para dizer: ‘Não, isso não é verdade, isso não aconteceu’. Tanto não aconteceu (a tortura contra a atriz e ex-deputada Bete Mendes) que eu não fui substituído. Fui mantido no cargo até meu último dia. Desfiz ponto por ponto todas as mentiras”.

A família ainda não decidiu onde Brilhante Ustra será velado e enterrado. O Exército deve soltar nota ainda nesta quinta (15/10) comentando a morte.