Ex-Inpe, Ricardo Galvão é escolhido um dos 10 cientistas do ano

O físico Ricardo Galvão, ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que protagonizou o principal embate entre a ciência e o governo Jair Bolsonaro neste ano, foi escolhido pela revista Nature, uma das mais prestigiosas do mundo, uma das 10 pessoas que foram mais importantes para a ciência neste ano.

A informação estava embargada até terça-feira (17/12/2019), quando a revista será distribuída, mas vazou mais cedo. Procurado pelo Estado, Galvão confirmou a homenagem e se disse “surpreso”.

“Fui procurado pela Nature há mais de três semanas para uma longa entrevista e fiquei surpreso com a escolha”, afirmou.

“Essa lista geralmente é feita com personalidades que possuem publicações com resultados científicos importantes. Eu não tenho uma publicação, mas eles consideraram importante a minha posição de defesa da ciência perante a comunidade internacional em um momento de obscurantismo”, disse.

Galvão chamou atenção de todo o mundo depois de responder as acusações sem prova do presidente Jair Bolsonaro, que disse que dados do Inpe que apontavam para um pico de desmatamento em julho eram mentirosos e acusou Galvão de estar “a serviço de alguma ONG” em um café da manhã com a imprensa estrangeira.

O cientista decidiu no dia seguinte se manifestar. Deu sua primeira entrevista ao Estado, quando afirmou que a atitude do presidente tinha sido “pusilânime e covarde”.

Ricardo Galvão foi exonerado do cargo no começo de agosto. Em novembro, o sistema Prodes, que aponta a taxa oficial de desmatamento da Amazônia, confirmou que houve um aumento de quase 30% na perda da floresta entre agosto do ano passado e julho deste ano, na comparação com os 12 meses anteriores.

Ricardo Galvão estava no Inpe desde 1970. Ele, que dirigiu o órgão por três anos, desde 2016, teria um mandato à frente do Inpe até 2020. Galvão fez doutorado em física de plasmas aplicada pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e é livre docente em física experimental na USP desde 1983. Depois de sair da direção do Inpe, voltou pra USP, para o Instituto de Estudos Avançados.

Após a exoneração, Galvão começou a dar palestras e participar de eventos no Brasil e no exterior. Em meados de agosto, ao voltar para a USP, Galvão deu um depoimento emocionado. “Sempre que a ciência for atacada, temos de nos levantar. As autoridades sempre se incomodam quando escutam o que não querem”, disse.

“Mas será que esse seria um momento de volta às trevas?”, questionou em referência à ditadura. Ele mesmo sentenciou: “Não. Porque a comunidade acadêmica e científica e o povo brasileiro não se calarão”.

Galvão, porém, rejeitou a ideia de ser herói. “Não usem a palavra herói ou mito. Não existe salvador da pátria”, disse. Em setembro, foi homenageado pela Academia Brasileira de Ciências (ABC).

Estadão Conteúdo

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