Criação de apps movimenta mercado e agita sonhos de jovens

Em 2018, foram realizados 194 bilhões de downloads de apps ao redor do mundo. Brasil é o segundo mercado que mais cresce

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atualizado 05/12/2019 18:46

Você acorda, pega o celular, checa o e-mail, passa o olho nas redes sociais, confere o saldo bancário, dá uma olhada na previsão do tempo, confirma a agenda de compromissos e verifica a situação do trânsito. Do momento em que levanta da cama até chegar ao trabalho, sem perceber, abriu e fechou, ao menos, uma dúzia de aplicativos. Com a massificação dos smartphones – e, mais precisamente, com o lançamento da App Store, em 2008 –, o usuário viu surgir um novo mundo, em que os programas para dispositivos móveis ganham cada vez mais importância.

De olho nesse cenário, desenvolvedores de Brasília arregaçam as mangas, correm atrás de conhecimento e trabalham na criação de programas que visam atender as mais diferentes demandas – de games casuais a soluções fitness. De acordo com a consultoria Adjust, o Brasil é o segundo mercado que mais cresce no uso dessas ferramentas, atrás apenas da Indonésia. Em 2018, segundo levantamento da App Annie, foram realizados 194 bilhões de downloads de apps ao redor do mundo. Somente na App Store, os usuários da Apple gastaram um total de US$ 101 bilhões com compras.

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Brasil é o 2º mercado que mais cresce no uso de aplicativos

De olho nesse fervilhante mercado, Fábio Barboza, ao lado de quatro sócios, fundou em 2013 a Kobe, empresa do Rio Grande do Sul especializada em desenvolvimento de aplicativos. A startup atende 40 clientes do Brasil (como Ambev e Tok&Stok) e do exterior. No total, são 40 pessoas que se revezam entre áreas como programação, vendas, marketing, UX/UI, design, entre outras.

“Trata-se de um negócio em que não existe nichos, já que podemos alcançar praticamente todas as empresas com inúmeras soluções”, explica Barboza, que é CEO da Kobe. Atualmente, a marca fatura R$ 4,8 milhões/ano e a expectativa para 2020 é ainda melhor. “De acordo com nosso crescimento, esperamos atingir a marca dos R$ 10 milhões/ano”, prevê.

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Equipe da empresa Kobe: expectativa de R$ 10 milhões em faturamento

Modelo social

Outro empreendedor que aposta no segmento é João Pedro Novochadlo, de 27 anos. Após participar de um hackathon em Curitiba (PR), resolveu criar, ao lado dos sócios, Leonardo Custódio e Lohann Coutinho, o Veever, um aplicativo que utiliza tecnologia de microlocalização (beacon) para guiar pessoas com deficiência visual ou com dificuldade de orientação por meio de um assistente de voz no smartphone. “Uma pessoa que não enxerga, por exemplo, pode chegar na parada de ônibus e ter informações da linha que se aproxima”, explica. Além do transporte público, a solução pode ser aplicada para identificar construções como estabelecimentos comerciais, prédios públicos, shoppings e museus.

A novidade, inclusive, foi testada neste ano dentro da área do Rock in Rio, permitindo que os usuários pudessem se orientar e saber a localização de cada atração do evento. De acordo com Novochadlo, como se trata de um aplicativo de impacto social, a maior dificuldade, no entanto, é criar um modelo de negócio que seja atrativo para investidores. “Empreender é encontrar um grande problema e ir destrinchando em pequenas partes até encontrar uma solução aplicável”, explica.

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João Pedro Novochadlo, da Veever: aplicativo para auxiliar pessoas com deficiência visual

Apple Academy

Para estimular esse mercado e capacitar novos profissionais, a Apple lançou, em 2013, um programa em parceria com instituições de ensino de diversos países. Somente no Brasil, são 10 universidades que oferecem o programa educacional exclusivo da empresa de Cupertino. O curso, que tem dois anos de duração, utiliza um método de ensino batizado de CBL (Challenge Based Learning – ou Aprendizado Baseado em Desafios), no qual os estudantes são desafiados a pensar em problemas reais e como resolvê-los utilizando a tecnologia.

Para isso, estudam de programação e design até modelos de negócios para entender mais profundamente sobre o ecossistema de apps e, assim, não fazer feio ao lançar os produtos no market place da companhia.

O programa permite que os jovens testem, amadureçam e implementem as próprias ideias, experienciando o desenvolvimento de aplicativos ou games, da concepção até a comercialização. Durante o aprendizado, eles recebem orientações teóricas, além de mentorias em áreas como empreendedorismo, comunicação e marketing.

O programa permite ver surgir apps, testá-los e desenvolver diferentes modelos de negócios. O interessante é que os aplicativos podem ser globais ou regionais e, mesmo assim, terem a possibilidade de impactar muitos usuários

Shaan Pruden, diretora sênior de relações com desenvolvedores da Apple

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Shann Pruden, da Apple, ao lado de ex-alunos do programa: capacitação para o mercado

Na empresa há 30 anos, a executiva testemunhou o nascimento da chamada “economia de aplicativos” como conhecemos hoje, passando de um mero conceito para um mercado que movimenta bilhões de dólares todos os anos. Além de atuar com a equipe em todos as categorias da App Store, ela viaja o mundo para conversar com jovens desenvolvedores com o objetivo de discutir o ecossistema e oferecer suporte e orientação.

De acordo com Clara Carneiro, estudante de Engenharia da Computação da Unicamp, em Campinas (SP), a Apple Academy permitiu desenvolver habilidades que vão além da programação, abrindo os olhos para um novo mercado em ebulição no país. “Trabalhamos com a execução de muitos projetos e isso nos faz entender de forma mais abrangente as necessidades de diferentes setores. Com isso, somos desafiados a todo instante a contextualizar a realidade de cada cliente”, aponta.

As inscrições para o programa da Apple ocorrem anualmente nas instituições credenciadas. Cada turma recebe entre 20 e 30 alunos. Desde 2013, aproximadamente 4 mil jovens passaram pelo projeto, lançando quase 3 mil apps. Somente na Universidade Católica de Brasília (UCB), cinco patentes foram registradas a partir das ideias desenvolvidas dentro dos laboratórios.

Além da instituição do Distrito Federal, a Apple Academy está disponível na PUC (RS, PR e RJ), Universidade Federal do Pernambuco, Instituto Eldorado (Campinas-SP), Senac, Mackenzie, Fundação Centro de Análise, Pesquisa e Inovação Tecnológica (Manaus-AM) e Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará.

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