Amazonas dá “morte miserável” a doentes de Covid-19, diz presidente de sindicato dos médicos

Após relatos de que médicos estariam usando morfina para aliviar a dor de pacientes, sindicato diz que estado promove "mistanásia"

atualizado 26/01/2021 20:24

Hugo BarretoMetrópoles

O presidente do Sindicato dos Médicos do Amazonas (Simeam), Mario Vianna, disse, nessa terça-feira (26/1), que o estado promove uma “mistanásia” contra pacientes com Covid-19 em meio ao colapso do sistema de saúde. Literalmente, o termo advém do vocábulo grego e significa “morte infeliz”. Mistanásia, porém, também pode ser entendida como “morte miserável”: por omissão, negligência ou incompetência na assistência à saúde.

“O termo mais adequado para entender o que estamos vivendo é mistanásia, que acontece quando o sistema público de saúde não consegue dar uma assistência aos pacientes – o que é a nossa realidade”, diz Vianna, ao Metrópoles.

A crítica surge após denúncias de que médicos do Amazonas estariam praticando “eutanásia” (ato de proporcionar morte sem sofrimento a um doente incurável) para “acelerar” a morte e reduzir as dores de pacientes com Covid-19.

A medida estaria sendo tomada pelos profissionais de saúde ante a alta taxa de hospitalização de pacientes com o novo coronavírus, em Manaus (AM), e a recente crise sanitária agravada com a falta de oxigênio no estado.

Relatos ouvidos pelo Metrópoles revelam que médicos usam morfina para aliviar o sofrimento de pacientes com falta de ar e, com a escassez de oxigênio no estado, reduzem a níveis inadequados o percentual de oxigenação dos doentes.

“A medicação é usada para aliviar o sofrimento do paciente, e não matá-lo, evidentemente”, explica o presidente. “E tem a questão do oxigênio, que, para se poupar, está diminuindo a quantidade”, prossegue.

“Agora, isso cabe ao Conselho Regional de Medicina, que é o órgão técnico, apurar. O cenário é de guerra, e, realmente, os profissionais estão tendo que trabalhar em condições inadequadas no Amazonas”, complementa.

Sobretudo no Amazonas, médicos e enfermeiros estão cansados física e mentalmente, segundo Vianna, em meio à citada falta de assistência do Estado e o aumento de hospitalizações em decorrência do novo coronavírus.

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No estado, a taxa de ocupação de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) destinados a pacientes com Covid-19 ultrapassa os 95%, segundo dados da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FSV-AM) dessa terça-feira.

Ambulâncias do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), inclusive, têm sido usadas como leitos de UTI nas frentes dos hospitais da capital do Amazonas ante a falta de espaço.

A situação pode piorar, uma vez que o número de pessoas diagnosticadas com a doença cresce diariamente e, no último dia 20, bateu recorde: 5.009 casos em 24 horas. No acumulado, Amazonas tem 250.935 diagnósticos da doença confirmados e 7.232 mortos.

A alta desses indicadores se agrava com a falta de equipamentos nos hospitais. Médicos, enfermeiros e outros servidores do Serviço de Pronto Atendimento (SPA) do bairro Redenção, em Manaus, se revezam para ambuzar (o reanimador manual é também conhecido como Ambu, que vem do inglês “Artificial Manual Breathing Unit”, Unidade Manual de Respiração Artificial) pacientes há dias, pois não há ventiladores mecânicos disponíveis.

Ou seja: para que as pessoas não morram asfixiadas por falta de oxigênio, os servidores da saúde tentam mantê-las vivas por meio de enorme esforço físico, fazendo manual e ritmadamente a oxigenação dos doentes, em turnos de 20 a 30 minutos. É um esforço exaustivo.

“Esses pacientes com Covid-19 que estão necessitando de ventilação mecânica, quando falta o oxigênio, passa-se a se ambuzar o paciente, ou seja, fazer uma ventilação manual”, explica Mario Vianna.

“O médico fica horas fazendo movimentos repetitivos e rapidamente as mãos dele ficam doloridas, levando a um sofrimento não só físico, mas também emocional. Por isso que eu digo que é um cenário de guerra”, ressalta.

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