Se vestir pijama, Mourão, não se queixe de ninguém lhe escrever

O general e o seu labirinto

atualizado 20/09/2021 10:34

Bolsonaro e Mourão Orlando Brito

Inimaginável como seria um eventual governo do general Hamilton Mourão, o vice-presidente que desde ontem governa o Brasil enquanto Jair Bolsonaro come pizza em Nova Iorque sem poder circular livremente porque não se vacinou contra a Covid-19.

Inimaginável porque Mourão, por mais que ultimamente tenha conversado à direita e à esquerda, aberto a quem o procura, evita dar pistas de como governaria o país se fosse o caso. O general pela-se de medo de ganhar entre seus colegas a fama de traidor.

Vice só chega ao poder por obra do destino. Aqui, não basta o destino, tem de contar também com a boa vontade e a ajuda das forças políticas dispostas a apoiá-lo. Sem assumir compromissos prévios, fica difícil. E Mourão recusa-se a assumir.

Dizem que ele e Bolsonaro fizeram as pazes há poucos dias. Bem que Mourão tenta acreditar que isso foi possível, mas Bolsonaro só fica de bem com sua família; dizia dever a Gustavo Bebianno a sua eleição; demitiu-o com menos de um mês de governo.

Foi para atender a um pedido de Carlos, o Zero Dois, rapaz emocionalmente instável como o pai. Foi Carlos que intrigou Bolsonaro com o general Santos Cruz, e o então ministro da Secretaria do Governo, amigo de Bolsonaro há 40 anos, dançou.

Mourão vive em um labirinto. Não quer voltar a vestir o pijama de general da reserva e resignar-se a jogar damas ou dominó por falta do que fazer. Gostou da política, embora a recíproca não seja inteiramente verdade. Como não se afastar dela?

Brasília está repleta de ex-deputados, ex-senadores, ex-ministros disso e daquilo outro que não sabem mais viver sem as futricas, os chamegos e as vantagens que a proximidade da Corte oferece. Isso vicia. De resto, fora da seca, Brasília é uma boa cidade para viver.

Passam-se os meses, encurta o tempo para que Mourão decida o que fazer. Candidatar-se-á a senador pelo Rio de Janeiro ou pelo Rio Grande do Sul? Pelo Amazonas, estado do qual ele tanto gosta, esqueça. Seu amigo, Omar Aziz, não lhe dará passagem.

Por imposição das regras eleitorais, Mourão tem até março do ano que vem para escolher que rumo tomará. Boa sorte! Se não leu, leia “Ninguém escreve coronel”, o segundo livro de Gabriel Garcia Márquez. Ele era amigo de Fidel Castro, mas e daí?

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