Renan Calheiros arrisca-se a cair na armadilha que pegou Doria

Mais discrição, menos arroubos e soberba não farão mal ao relator da CPI da Covid-19, segundo seus colegas

atualizado 14/05/2021 9:00

oitiva do ex-secretário das Comunicações Fabio Wajngarten Igo Estrela/Metrópoles

Por que o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), não decola nas pesquisas de intenções de voto para presidente da República nas eleições do ano que vem? Pesquisas respondem.

Não decola, entre outros motivos, porque na opinião da maioria dos seus governados tentou tirar proveito político em excesso do fato de ter saído na frente em busca de vacinas contra a Covid.

Renan Calheiros (MDB-AL), relator da CPI da Covid-19, arrisca-se a cair na mesma armadilha que pegou Doria. É a opinião de muitos dos seus colegas no Senado.

O alagoano, no imaginário do país, não leva desaforo para casa; reage a todo tipo de provocação dos adversários; e, no extremo, se não puxa a faca ou se não saca o revólver, sai no tapa.

A fama vem desde o tempo de Floriano Peixoto, o Marechal de Ferro, brabo como uma capota, o segundo presidente do Brasil depois da queda do Império.

Seu governo foi marcado por rebeliões militares, todas reprimidas com mão de ferro, daí o apelido. A Assembleia Legislativa de Alagoas já foi palco de um tiroteio.

Em 13 de setembro de 1957, 35 deputados, armados com revólveres e metralhadoras, foram votar o pedido de impeachment do então governador do estado, Muniz Falcão.

Sacos de areia haviam sido colocados no interior da Assembleia para servirem como trincheiras. Mais de mil tiros foram disparados. Oito pessoas ficaram feridas. Um deputado morreu.

Em dezembro de 1963, um senador alagoano (Arnon de Mello, pai de Fernando Collor) atirou dentro do plenário em outro senador alagoano (Silvestre Péricles), matando um terceiro (José Kairala).

Não se sabe se Renan tem porte de arma, nem se gosta de armas, mas não suporta ser atacado sem contra atacar, mesmo que o ataque o beneficie se ele posar de vítima.

Na sessão da CPI da última quarta-feira, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos), por encomenda do seu pai, chamou Renan de “vagabundo” e mandou-o “se foder”.

A solidariedade a Renan, ali, teria sido integral se ele não tivesse replicado chamando Flávio de “vagabundo” e acusando-o de ter roubado parte do salário de seus funcionários.

Uma placa com o nome do senador é posta diante do lugar em que senta cada um deles à mesa do comando da CPI. Renan tirou seu nome e pôs o número de mortos pela Covid até agora.

Não perde uma chance de confrontar o governo e os senadores governistas da comissão. Ao ouvir depoimentos, só parece se interessar pelo que possa atingir o governo.

A certa altura do depoimento do executivo da Pfizer, quando ele confirmou a participação do vereador Carlos Bolsonaro em uma reunião para a compra da vacina, logo Renan o interrompeu:

– Ah, obrigado.

Era o que queria ouvir, mas o executivo continuou falando. Antes que terminasse, Renan outra vez o interrompeu:

– Acho que já respondeu.

Renan liderou o grupo de senadores que pediu a prisão do ex-Secretário de Comunicação do governo, Fabio Wajngarten, mesmo sabendo que ela não seria autorizada pelo presidente da CPI.

Faz, querendo ou não, o jogo de Bolsonaro que o elegeu como inimigo número um dentro da CPI, e que tenta desacreditá-lo. Bolsonaro só tem a ganhar com isso, e Renan a perder.