Presidente argentino ofende os argentinos, os brasileiros, não

Saímos ou não das florestas para nos misturarmos com brancos e negros trazidos da África? A diversidade é a maior riqueza do Brasil

atualizado 10/06/2021 12:11

Presidente da Argentina, Alberto Fernández Reprodução/Twitter

Há duas semanas, quando o Papa Francisco referiu-se ao Brasil como um país de “muita cachaça e pouca oração”, a mídia correu a explicar que tudo não passara de uma brincadeira. E um dos padres brasileiros que ouviu isso em Roma, também.

Agora, pelo menos por aqui, vê-se como ofensa ao Brasil o que disse, ontem, Alberto Fernández, presidente da Argentina, ao recepcionar em Buenos Aires o primeiro-ministro da Espanha em visita oficial. Disse Fernández:

“Octavio Paz [escritor mexicano, Prêmio Nobel de Literatura] escreveu uma vez que os mexicanos vieram dos índios, os brasileiros vieram da selva, mas nós, os argentinos, chegamos em barcos. Eram barcos que vinham da Europa”.

Paz não escreveu nada disso. Escreveu: “Os mexicanos descendem dos astecas, os peruanos dos incas e os argentinos dos barcos”. A frase citada pelo presidente argentino é uma estrofe da canção “Llegamos de los barcos”, do roqueiro Lito Nebbia.

Europeísta, como admitiu que é, Fernández pretendia elogiar a Europa pela importância de sua imigração para a Argentina entre os séculos XIX e XX. Entre 1881 e 1914, a Argentina recebeu milhões de estrangeiros, entre eles italianos e espanhóis.

O mundo desabou na cabeça de Fernandéz em seu país. Aqui, tenta-se que desabe também, principalmente os bolsonaristas, ao que parece sem muito sucesso. O presidente Jair Bolsonaro publicou até uma foto sua com índios sob o título: “Selva”.

Saímos das florestas quando os brancos europeus descobriram o Brasil e começaram a explorar suas riquezas. Os nativos misturaram-se com eles e com os negros escravos trazidos da África. A maior parte da população brasileira residente é parda.

Antes da chegada dos primeiros europeus à Argentina no século XVI, o país já era habitado por indígenas. Segundo o último censo, tem quase um milhão de indígenas. No Brasil, os índios já foram algo entre 4 e 10 milhões. Hoje, menos de 900 mil.

Nas redes sociais argentinas, Fernández virou “Vergonha Nacional”, apanhou sem piedade e foi obrigado a desculpar-se. Sua fala reforça o mito cultivado por políticos como ele de uma Argentina de origem europeia, sem raízes indígenas ou africanas.

O comentário sarcástico do Papa Francisco acabou em samba no Brasil. Comparado com o dele, o de Fernández só ofendeu os argentinos, se tanto.