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O eleitor é cada vez mais dono do seu voto, e os políticos não gostam

Bolsonaro se vacina contra o que possa vir

atualizado 05/10/2022 8:06

Presidente do Brasil e candidato presidencial Jair Bolsonaro chega para votar durante o dia da eleição presidencial em 02 de outubro de 2022 no Rio de Janeiro, Brasil. Após campanha polarizada entre Lula e Bolsonaro, a maior nação latino-americana vota para presidente em meio à crise econômica Buda Mendes/Getty Images

Quando repórter do Jornal do Commercio, no Recife, no final dos anos 1960, escrevi horóscopo. Vez ou outra, as previsões de um astrólogo do Sul do país, compradas pelo jornal a uma agência de notícias, não chegavam a tempo de ser publicadas no dia seguinte.

Então, o editor da página pedia a um redator que se encarregasse da tarefa. O espaço não poderia sair em branco. Era divertido. Sabedor da data de nascimento de pessoas que queríamos incomodar, fazíamos previsões que as deixassem nervosas.

Só mais tarde aprendi que não se deve brincar com o natural desejo humano de saber o que o futuro lhe reserva. Isso explica, por exemplo, porque as pesquisas de intenção de voto, retratos de um momento que passou, são entendidas como prognósticos.

E não adianta repetir que são meros retratos. O voto útil que o PT tanto buscou para eleger Lula no último domingo aconteceu, mas a favor de Bolsonaro. Advertidos pelas pesquisas de que faltava um tiquinho para Lula vencer, os bolsonaristas foram à luta.

Reverteram votos que seriam dados a Ciro Gomes e a Simone Tebet. E assim Bolsonaro cresceu na reta final. De fato, faltou um tiquinho para que Lula cantasse vitória: segundo os resultados oficiais, 1.855.347 votos. A Bolsonaro, faltaram 8.042.518.

Hoje é dia de nova pesquisa Ipec, ex-Ibope, a primeira do segundo turno. Justamente por levarem pesquisas a sério e gastarem muito dinheiro com elas para sua orientação, assessores de Bolsonaro providenciaram vacinas para imunizar o candidato.

Uma delas: acionar o Ministério da Justiça para processar os institutos de pesquisas por eventuais erros. Outra: abrir no Congresso a CPI das Pesquisas. O senador Flávio  Bolsonaro foi um dos primeiros a assinar o requerimento de criação da CPI.

E mais uma: tornar público acordos previamente fechados com candidatos a governos que poderiam se eleger, mas que não queriam se identificar desde cedo como apoiadores de Bolsonaro. Foi o caso de Zema (MG), Castro (RJ) e Garcia (SP); esse, perdeu.

Estava escrito nas estrelas, e acertado por baixo dos panos, que Sérgio Moro, se se elegesse senador, apoiaria Bolsonaro. Por baixo dos panos, ao seu tempo de juiz, antes de Bolsonaro se eleger presidente, Moro acertou servi-lo como ministro da Justiça.

Os políticos amam se comportar como donos dos votos que os elegem. A força da máquina de governos em mãos de alguns não deve ser subestimada, embora nem sempre produzam os efeitos esperados. O eleitor cada vez vota mais por sua conta e risco.

Disso, em 1989, sabia Leonel Brizola, presidente do PDT. No segundo turno, ele hesitou em apoiar Lula contra Collor. Ao chegar a uma reunião com os militantes do partido no Riocentro, viu que eles já haviam engolido o sapo barbudo. Só restou-lhe engoli-lo.

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