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MEMÓRIAS – O imperador tirano da Etiópia e a arte de governar

Saquear o cofre tornou-se uma atitude digna, enquanto não fazê-lo era desonroso, um indício de fragilidade

atualizado 26/03/2022 3:02

Hailé Selassié I Reprodução

O amo sabia que alguém satisfeito vai sempre querer defender a fonte de sua satisfação, e onde alguém poderia estar mais satisfeito do que no palácio?

 Do apreço pelos mais fracos

O fato de um ministro estar ou não à altura de suas funções não tinha e menor importância; o essencial era que demonstrasse uma inabalável lealdade ao imperador. O generoso amo protegia os ministros que não se destacavam pela inteligência ou por sua capacidade empreendedora: tinha apreço especial por eles, já que os considerava elementos estabilizadores da vida no império.

Da corrupção tolerada

Às vezes, o digníssimo amo passava uma leve descompostura nos que demonstravam excesso de ganância, mas nunca se zangava, pois sabia que graças àquele cofre aberto é que as pessoas lhe eram mais leais e se dedicavam a ele com mais disposição.

Saquear o cofre tornou-se uma atitude digna, enquanto não fazê-lo era desonroso, um indício de fragilidade, uma forma de letargia, uma impotência digna de comiseração.

Do luxo que dignifica

Um trono só dá dignidade quando contrasta com a humildade dos que o cercam; é a humildade dos subordinados que aumenta a importância da cadeira real e que lhe dá sentido. Sem ela, um trono não passa de uma peça decorativa, de uma poltrona desconfortável com tecido gasto e molas torcidas.

Num país miserável, dinheiro é como uma maravilhosa cerca-viva, estonteante e sempre florida que protege o senhor de tudo e de todos. Ela o impede de ver a miséria do outro lado, de sentir o fedor da pobreza, de ouvir o clamor proveniente da escória humana.

Da arte de sem ambíguo

Nosso monarca também não escrevia a quem quer que fosse e jamais assinou um documento. Apesar de ter reinado por meio século, até mesmo os que lhe eram mais próximos não faziam a menor ideia de como era sua assinatura.

Durante as cerimônias oficiais, o imperador tinha sempre ao lado um “Ministro da Pena”, que anotava as ordens e recomendações. Devo mencionar ainda que nas audiências o digníssimo monarca falava muito baixo, movendo pouco os lábios.

O Ministro da Pena, postado junto ao trono, era forçado a inclinar o ouvido para perto dos lábios imperiais a fim de poder ouvir e anotar as decisões.

Para piorar as coisas, as palavras do imperador eram, na maioria das vezes, confusas e ambíguas, principalmente quando não desejava tomar partido em alguma situação.

Por um mero olhar

Suponhamos, meu senhor, que os olhos do venerável amo tenham deslizado por nosso rosto; deslizado apenas, nada mais! Todos sabiam que o grão senhor, ao não exercitar a leitura e a escrita, desenvolveu uma memória visual extraordinária.

E era exatamente sobre esse dom da natureza que a pessoa sobre a qual os olhos do imperador deslizavam construía toda a sua esperança – porque podia contar com a possibilidade de que um tênue sinal, ainda que uma sombra obscura, ficasse gravado na memória do monarca.

Do necessário equilíbrio

Aqui residia a grande sabedoria de nosso amo: ninguém nunca sabia o que o aguardava, nem qual seria o seu destino. Essa incerteza e a falta de clareza das intenções do monarca faziam o palácio viver um permanente estado de boataria e suposições.

Assim que um partido se destacava, o amo imediatamente cobria de favores a facção contrária, restaurando o equilíbrio que paralisava os usurpadores.

Os discursos do imperador eram sempre serenos, repletos de bondade; eles animavam a população que nunca ouvira da boca do seu misericordioso amo uma palavra mais áspera.

Do acesso ao ouvido

Os níveis de poder no palácio não eram determinados pela hierarquia, mas pela frequência com que alguém era recebido pelo venerável amo. Costumava-se dizer que a pessoa mais importante era aquela que mais vezes tinha acesso ao ouvido imperial. E que mais tempo permanecia junto dele.

(Aqui publicados em 2/11/2005, trechos do livro “O Imperador – os bastidores do palácio de Hailé Selassié I, o tirano que governou a Etiópia por 44 anos”. Companhia das Letras)

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