Genocida ou não, a História não absolverá Bolsonaro, vulgo O Mito

Começa a cair a ficha do presidente de que seu indiciamento por muitos crimes será pedido pela CPI da Covid-19

atualizado 16/10/2021 8:24

Cerimônia do Prêmio Marechal Rondon de Comunicações conta com a presença do presidente bolsonaro, lira e pacheco 7 Rafaela Felicciano/Metrópoles

Na versão Jairzinho paz e amor – um presidente frágil, nada agressivo, capaz de chorar dentro do banheiro sem a mulher saber –, o presidente Jair Bolsonaro queixou-se do senador Renan Calheiros (MDB-AL), relator da CPI da Covid, que pretende sugerir seu indiciamento por crime de genocídio.

Indiciamento significa fazer com que uma pessoa seja submetida a um inquérito criminal ou administrativo. Por genocídio, entendam-se atos cometidos com a intenção de destruir, total ou parcialmente, um grupo nacional, étnico, racial, ou religioso. A um grupo de devotos, ontem, Bolsonaro lamentou:

“O que passa na cabeça do Renan Calheiros naquela CPI com esse indiciamento? Esse indiciamento, para o mundo todo vai que eu sou homicida. Eu não vi nenhum chefe de estado ser acusado de ser homicida no Brasil por causa da pandemia. E olha que eu dei dinheiro pra todos eles.”

Ao mencionar chefes de estado, o presidente referia-se a governadores. Ele é assim mesmo, na maioria das vezes não sabe o que diz e confunde as coisas. Se necessário e com muito cuidado para não enfurecê-lo, depois alguns dos seus auxiliares se apressam a corrigi-lo. Ou então deixam para lá.

Na mais recente versão do seu relatório a ser votado na próxima semana, Renan propõe o indiciamento de Bolsonaro por 11 crimes. Entre outros, charlatanismo, prevaricação; genocídio de indígenas; emprego irregular de verbas públicas; violação de direito social; e incompatibilidade com dignidade, honra e decoro do cargo.

É possível que o crime de genocídio suma do relatório. Pode ser o bode posto na boleia de um caminhão cheio de gente para, uma vez retirado, as pessoas pararem de reclamar. A bancada governista da CPI tentará suprimi-lo. Entre os senadores de oposição, há dúvidas sobre se Bolsonaro deve de fato ser apontado como genocida.

A essa altura, isso não importa. Aqui e no exterior, é por genocida que Bolsonaro tornou-se conhecido. Mais de 600 mil brasileiros morreram durante a pandemia e a culpa por isso deve ser dividida entre o vírus e um governo que a enfrentou como se fosse apenas uma gripezinha, boicotando o quanto pôde a compra de vacinas.

E não foi por falta de dinheiro. Até janeiro último, o governo já havia gastado quase 90 milhões de reais com a compra de medicamentos sem eficácia comprovada no tratamento da covid-19, como cloroquina, azitromicina e o Tamiflu. Até junho, gastou mais 23 milhões para divulgar o chamado tratamento precoce.

Dinheiro jogado fora. Comportamento bandido e irresponsável. Aposta que sabidamente daria errado. Desamor pela vida alheia. A história jamais absolverá o miliciano Jair Messias Bolsonaro, vulgo O Mito. Se não pode ser preso enquanto for presidente da República, no mínimo merece ser esculachado.