Denúncias põem em xeque os três Poderes da República

Orçamento secreto para a compra de votos de deputados e senadores deixa mal o governo e o Congresso. Polícia Federal quer investigar

atualizado 12/05/2021 8:11

Michael Melo/Metrópoles

Nas últimas 48 horas, graves denúncias atingiram em cheio o Executivo, Legislativo e Judiciário. A existência de um orçamento secreto para a compra de votos de deputados e senadores deixa em maus lençóis o governo e o Congresso. O pedido da Polícia Federal para investigar o ministro Dias Toffoli, suspeito da venda de sentenças, macula a imagem do Supremo Tribunal Federal.

O orçamento secreto foi comprovado por uma série de reportagens do jornal O Estado de S. Paulo. O governo limita-se a dizer que de secreto não havia nada, e que a responsabilidade pela aprovação do orçamento cabe ao Congresso. Deputados e senadores beneficiados com milhões de reais destinados a obras em seus Estados e Municípios negam que tenham vendido seus votos.

O ministro Edson Fachin, do Supremo, relator do caso, acionou a Procuradoria-Geral da República para que opine sobre o pedido da Polícia Federal feito com base no acordo de delação premiada firmado com o ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral, preso desde 2016, condenado mais de uma dezena de vezes por corrupção a penas que somam quase 300 anos.

É pouco provável que o procurador Augusto Aras seja a favor de investigar Toffoli. Aras deve o cargo ao presidente Jair Bolsonaro que, por sua vez, deve a Toffoli muitos favores – entre eles, o de ter abortado uma conspiração para derrubá-lo quando o ministro presidiu o Supremo. Foi Toffoli que contou à revista VEJA que havia abortado uma conspiração para derrubar Bolsonaro.

Aras ainda tem esperança de ser indicado por Bolsonaro para uma vaga de ministro do Supremo. Não pegaria bem para ele ingressar no tribunal na condição de algoz de um dos seus futuros colegas. De resto, em troca de menos anos de cadeia, quem delata é capaz de inventar histórias. A Lava Jato está repleta de exemplos. O ex-ministro Antonio Palocci (PT) mentiu à beça para safar-se.

Toffoli tem a solidariedade dos seus pares que confiam integralmente nele. Não se pode dizer a mesma coisa de Rogério Marinho, ministro do Desenvolvimento Regional, ao qual se subordina a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), o caixa de onde saiu boa parte do dinheiro para a compra de votos de deputados e senadores.

Bateu barata voa dentro do governo. Marinho não agiu sozinho, mas com a ajuda do general Luiz Eduardo Ramos, chefe da Casa Civil, mas que antes cuidava da articulação política como ministro da Secretaria do Governo. Bolsonaro sempre soube de tudo e concordou. Como adversário de Marinho, o ministro Paulo Guedes, da Economia, está rindo à toa.

No mensalão do PT, escândalo descoberto em 2005 durante o primeiro governo de Lula, também comprou-se votos com dinheiro público. De tão amador, o esquema obrigava que deputados ou seus representantes fossem retirar a propina em uma agência bancária. O esquema ganhou sofisticação no escândalo do Petrolão que envolveu a Petrobras e outras empresas estatais.

À época deputado federal, Bolsonaro criticou duramente o que fez o PT para montar no Congresso uma base de apoio que lhe permitisse governar. Há pouco mais de dois anos, como candidato a presidente, jurou que jamais faria algo semelhante. Foi o que acabou fazendo a pretexto de governar e também de escapar a mais de uma centena de pedidos de impeachment contra ele.

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