Bolsonaro vê a morte de perto, mas nada aprende com isso

Nem o risco de morrer muda a natureza de gente ruim

atualizado 06/01/2022 9:25

Presidente acenou para apoiadores na saída do hospital em SP Fábio Vieira/Metrópoles

Em agosto de 1954, o presidente Getúlio Vargas matou-se com um tiro no coração para não ser deposto, conseguindo com isso adiar em 10 anos o golpe que implantaria a mais longeva ditadura militar da história do país. Ela durou 21 tristes e tenebrosos anos.

Órfão da ditadura, acidentalmente eleito presidente em 2018, Jair Bolsonaro, capitão afastado do Exército por indisciplina, deu início ao seu último ano de governo pondo em risco a própria vida. Não o fez por motivo nobre, mas por pura irresponsabilidade.

Tem gente que vê a morte de perto, aprende a lição e muda de comportamento para melhor. Bolsonaro não faz parte desse time. Pela primeira vez, viu a morte de perto quando foi esfaqueado por Adélio Bispo, um perturbado mental que agiu sozinho.

Desde então voltou a vê-la com frequência. Parte dos encontros foi decorrência natural dos danos provocados pela facada, parte por não ter seguido recomendações médicas. Se não dá tanto valor assim à sua vida, como esperar que dê à vida alheia?

Ao invés de marcar presença entre os milhares de brasileiros desalojados por chuvas torrenciais país afora, Bolsonaro preferiu sair de férias. Em São Paulo, dançou funk dentro de uma lancha e confraternizou na praia, e sem máscara, com centenas de banhistas.

Foi visto em Santa Catarina em passeios de motocicleta e de moto aquática, a cortar o cabelo, a jogar na Mega-Sena da Virada, a jantar em pizzaria onde estava proibido pelos médicos de entrar, e a se apresentar em um parque de diversão como piloto de carro.

Na noite do domingo, telefonou para seu médico e disse que estava morrendo. Ao receber alta ontem, a primeira coisa que disse foi uma mentira:

“O presidente não tem férias. É maldoso quem fala que estou de férias.”

Em seguida, negou que tenha tentado politizar a internação. Ora, do leito do hospital, com direito a foto no Twitter, ele anunciou que talvez fosse operado outra vez. Sua mulher e os filhos agradeceram as orações por ele. Só faltou fazer um comercial da facada.

Antes de voar a Brasília, Bolsonaro aproveitou para dar estocadas em velhos e novos adversários. Sobrou para Lula, para o ator José de Abreu, o Santiago da novela “Um Lugar ao Sol”, da Rede Globo de Televisão, e até para a cantora baiana Ivete Sangalo.

O estado de saúde de Bolsonaro inspira cuidados. Segundo seu médico, “o intestino está todo colado na parede. Na hora que passamos a sonda nele, saiu um litro de suco gástrico do estômago. Se ele vomitasse, o líquido entrava nos pulmões e ele morria”.

Bolsonaro deve evitar subir em caminhões ou lugares altos. Se o impacto de uma queda atingir a região fragilizada do seu corpo, que é o lado esquerdo na altura do umbigo, o intestino pode romper-se. Nada de comer carne ou de pilotar motos.

“Eu não consigo me controlar”, foi logo adiantando Bolsonaro. “Recomendaram para não comer pastel e nem caldo de cana, mas é difícil ficar parado. Queria estar hoje à noite no jogo do Marrone e do Gusttavo Lima [no interior de Goiás]”. E de fato esteve.

Pela reeleição, vale tudo. Só não vale trabalhar muito.

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