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Boletim do golpe (XI) – O general e a deputada, diálogo de surdos

A República tem três Poderes, e as Forças Armadas não são um deles

atualizado 07/07/2022 1:40

Bolsonaro e militares Orlando Brito

O general queria discutir as medidas sugeridas pela Forças Armadas à Justiça para tornar mais seguro o processo eleitoral. A deputada, o que as Forças Armadas estão fazendo para identificar “grupos armados ou pessoas mal-intencionadas” dispostas “a interferir e tirar a paz do processo eleitoral no dia da eleição”.

Foi um diálogo de surdos, pois, que não satisfez nem um lado nem o outro em mais uma audiência pública da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara que durou seis horas. A deputada federal Perpétua Almeida (PC do B-AC) perguntou a certa altura da sessão:

“O que as Forças Armadas estão fazendo para evitar um Capitólio, por exemplo?”

Referia-se à invasão do Congresso dos Estados Unidos por apoiadores do ex-presidente Donald Trump no dia 6 de janeiro do ano passado, inconformados com sua derrota. O general Paulo Sérgio Nogueira, ministro da Defesa, respondeu sob o olhar atento dos Comandantes do Exército, Marinha, e Aeronáutica:

“A preocupação que a senhora expôs nos seus comentários em relação ao emprego da inteligência internamente e, não sei se foi essa a intenção, no que diz respeito ao processo eleitoral, eu nego. Não existe esse tipo de preocupação”.

Então, a deputada foi direto ao ponto:

“Essa briga com o Tribunal Superior Eleitoral não é uma batalha das Forças Armadas. O presidente fez uma escolha. As Forças Armadas não precisam fazer. Porque o poder civil não pode aceitar isso. Não cabe às Forças Armadas ficar debatendo urnas eletrônicas. O tribunal cuida do processo eleitoral”.

Embora a deputada tenha dito que se recusava a debater esse assunto com o ministro da Defesa, ele respondeu que ficaria na Comissão o tempo que fosse necessário para falar das urnas eletrônicas:

“Nenhum sistema informatizado é totalmente inviolável. Sempre existirão riscos, e citei os bancos que gastam milhões com sistemas de segurança. Não se trata de qualquer dúvida com relação ao sistema eleitoral. As Forças Armadas estavam quietinhas no seu canto e foram convidadas para participarem dessa Comissão de Transparência das Eleições”.

Outros deputados da oposição criticaram o alinhamento do Ministério da Defesa com Bolsonaro. Ontem mesmo, em reunião ministerial, Bolsonaro voltou a criticar duramente ministros do Supremo Tribunal Federal e disse que poderá ficar de fora das eleições se continuar duvidando da segurança das urnas.

O general apelou para a ambiguidade ao responder às críticas:

“Não se está duvidando [do sistema eleitoral]. Simplesmente, [atuamos] com espírito colaborativo para ajudar o tribunal. Eu disse isso em reuniões com o presidente e vice. Estamos prontos, permanecemos colaborativos para o andamento do processo.”

Em seguida, queixou-se:

“Tenho tentado, em várias oportunidades, para que possamos sentar à mesa, equipe técnicas das Forças Armadas e outras equipes, Polícia Federal, para conversar e conhecer melhor [o sistema eleitoral]. Não tive êxito nessas reuniões técnicas”.

A verdade é que as Forças Armadas por meio dos seus chefes se alinharam a Bolsonaro para pressionar a Justiça. Uma coisa é, se convidadas a darem palpites, oferecê-los. Outra é pesar a mão para que suas sugestões sejam acatadas. Muitas delas foram, outras serão examinadas e aceitas ou não para eleições futuras.

Ninguém se mete com o processo de formação dos militares, com o  modo como eles exercem suas funções. À Justiça, portanto, o que lhe cabe. A cada um dos três Poderes da República, o papel que a Constituição lhe reserva. As Forças Armadas não são um Poder à parte. Elas não tutelam, são tuteladas.

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