Alerta sobre profecias feitas por interessados em que elas se realizem

Sem ilusão, as eleições não teriam a menor graça

atualizado 29/11/2021 8:56

Arte/Metrópoles

Profecias políticas obedecem a uma lógica: cada um diz antever o que lhe interessa e descarta o que o contraria. Não é sobre esperteza, mas sobre o desejo natural de que assim seja.

Bolsonaro, por exemplo. Escolheu para adversário quem ele calcula ser o mais fácil de derrotar, Lula. Então repete, e não por desonestidade, que Lula estará no segundo turno.

De resto, é também o que as pesquisas de intenção de voto indicam até aqui. Pela mesma razão, o pessoal de Lula diz que Bolsonaro será o principal adversário dele no primeiro e no segundo turno.

Com uma razão a mais para acreditar nisso: presidente candidato à reeleição no Brasil nunca ficou de fora do turno final. Acrescente-se para incômodo dos que cercam Lula: e sempre venceu.

João Doria não só estava convencido de que seria o candidato do PSDB a presidente como o de que acabará sendo mais adiante o candidato de todas as demais vias contra Bolsonaro e Lula.

E mais: de que ante a fraqueza de Bolsonaro, disputará o segundo turno com Lula, atraindo o apoio dos demais candidatos que ficarem pelo meio do caminho. Está na lanterna das pesquisas.

Quem ouve Márcio França (PSB), aspirante a candidato a vice na chapa de Geraldo Alckmin (PSDB) para governador de São Paulo, pensa que ele torce mais por Lula do que por Alckmin.

França aposta que Alckmin entrará no PSB, seu partido, para ser vice de Lula. Com isso, se abriria a porta para que França fosse candidato ao governo de São Paulo como já foi uma vez, e perdeu.

Se não houvesse ilusão na política não haveria campanha nem eleição. Ou em cada eleição só haveria um candidato. Com mais de 33 partidos, o Brasil é um terreno propício a ilusões.

Antes da facada em Juiz de Fora, quem se arriscava a prever a vitória de Bolsonaro, um deputado do baixo clero da Câmara jamais levado a sério por seus pares? Nem Bolsonaro se arriscava.