A voz dos mortos pela Covid-19 e a estupidez do governo Bolsonaro

O dia em que a CPI calou-se e chorou com o depoimento dos que falaram pelos mais de 600 mil mortos da pandemia

atualizado 19/10/2021 9:07

CPI da Covid Orlando Brito

Márcio Antonio do Nascimento Silva, Rio de Janeiro, que perdeu o filho de 25 anos: “Três dias depois de enterrar meu filho, ouvi aquela fatídica frase: ‘E daí?’. Isso me fez muito mal. Eu quero que alguém me faça entender por que lutar contra a máscara, contra a vacina? Daria tudo para que meu filho tivesse se vacinado. Merecíamos um pedido de desculpas da maior autoridade do país. Não é questão de política, estamos falando de vidas. A nossa dor não é mimimi, não somos palhaços”.

Katia Castilho dos Santos, São Paulo, que perdeu o pai e a mãe: “Quando vemos um presidente da República imitando uma pessoa com falta de ar, isso para nós é muito doloroso. Se ele tivesse ideia do mal que fez ao país, não faria isso. A vacina é a única solução. Se você ainda não tomou a vacina, tome, por favor, aproveite a oportunidade”.

Giovanna Gomes Mendes da Silva, Maranhão, que perdeu o pai e a mãe, e agora cuida da irmã de 10 anos: “Assim que tudo aconteceu, senti dois impactos. Eu e minha irmã, a gente teve um impacto emocional e, depois, financeiro. Não estávamos psicologicamente preparadas para aquilo, como não estamos até hoje. Minha mãe havia falecido há dois dias, e eu não podia chorar no hospital na frente do meu pai. Tinha que mostrar força”.

Mayra Pires Lima, Amazonas, que perdeu a irmã e assumiu a guarda de quatro sobrinhos: “Hoje, vejo que minha irmã não sobreviveu não apenas por causa de uma pessoa, mas devido a uma rede de culpabilidade. Só em Manaus temos mais de 80 órfãos da Covid. Só na minha família são quatro. O que está se fazendo por essas crianças e por essas famílias?”.

Antônio Carlos Costa, Rio de Janeiro: “Jamais vimos Bolsonaro derramar lágrimas de compaixão ou expressar pesar pelo povo brasileiro. Não soubemos de favela que ele tenha visitado ou hospital ao qual tenha se dirigido para comunicar ânimo aos nossos profissionais de saúde. O que vimos foi a antítese do que se esperava de um presidente da República. Ninguém aceitaria isso em nenhuma nação desenvolvida. Que nunca mais sejamos governados da mesma maneira por quem quer que seja”.

Rosane Maria dos Santos Brandão, Rio Grande do Sul, que perdeu o marido: “Esperamos uma vacina que chegou tardiamente e a conta-gotas. Não estamos indignados com o ciclo natural da vida, sabemos que as pessoas nascem e morrem. Mas estamos falando daqueles que deveriam estar entre nós neste momento, não fossem as escolhas deste governo. Há várias maneiras de o Estado matar o seu povo, e a falta de política pública é uma delas”.