Vivi e o marido traíra (por Mirian Guaraciaba)

Protestos, cartas, notas e discursos caem no vazio quando o ouvinte é um asno sanguinário

atualizado 03/08/2021 1:30

ministro TSE STF justica Luís Roberto Barroso eleicoes 20203 Igo Estrela/Metrópoles

Doce figura, rosto perfeito, pequena, um pouquinha roliça, cheia de vida. Vivi era uma brava repórter. Tempos em que jornalismo não se fazia pela internet. Cabelos louros, encacarolados, roupas descontraidas, Vivi ia atrás de noticia como poucos. Sabia de tudo.

Vivi só não conseguir driblar o marido, não enxergava o que acontecia debaixo de seu nariz.  Todos sabiam. O marido não era flor que se cheirasse. Feio que doía, certamente tinha borogodó. Virava e mexia, via-se e ouvia-se falar de Dráuzio com alguma mulher. Em local público.

Incomodados, os amigos passaram a instigá-la. Voce tem que reagir, Vivi. Tem que dar um basta. E um dia, Vivi, com seus 1m55, peitou o marido alto e magro, tipo jogador de basquete. “Eu disse a ele, o que você tá pensando? E aí, Vivi? Eu disse “mês” (a palavra mesmo com forte sotaque mineiro)”. Sim, Vivi. O que mais? “Gente, eu disse:: o que você está pensando?”

Vivi enfatizava o tom direto que aplicara a Dráuzio, convencida de que havia dado um fim na prevaricação do marido. Gostou do que disse, “dedo em riste”, como frisava. Drauzio nunca passou recibo. Insistiu na perfídia, dava rasteiras em Vivi e os amigos … fingiam que não viam.

Lembrei de Vivi hoje ao ouvir o discurso do presidente do Supremo Tribunal Federal, Ministro Luiz Fux. Todas as reações a Bolsonaro me lembram Vivi. Cartas de protesto, notas de indignação, declarações fortes de expoentes da sociedade civil e politica, tudo me lembra Vivi. “Eu disse mês. O que você está pensando?”

Fux parecia implacável. Não citou o Capitão. “A harmonia e a independência entre os Poderes não implicam impunidade de atos que exorbitem o necessário respeito às instituições”. Defendeu o colega Luis Roberto Barroso, atacado por Bolsonaro. Também sem citá-lo, disse que o STF permanece atento “aos ataques de inverdades à honra dos cidadãos que se dedicam à causa pública”. Belo discurso.

E teve a nota em defesa do nosso sistema eleitoral, assinada pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral, o vice-presidente, ministro Edson Fachin, o futuro presidente, ministro Alexandre de Moraes, e todos os ex-presidentes do TSE (TSE) desde 1988. Bela nota.

Nada intimidou a retórica de Bolsonaro. Momentos depois, mais uma vez, fez pouco caso do Supremo, de Fux, de Barroso, do TSE. Na paranóia eleitoral criada em torno da possibilidade de uma fraude inexistente, repetiu, em cerimonia arranjada para o repeteco, a falácia do voto impresso e da falta de transparência nas eleições.

O Capitão tem ameaçado: se não tiver voto impresso, não haverá eleição.”Estão com medo de que?”, perguntou o Capitão. Quem parece amedrontado é ele. Bolsonaro e filhos participaram de mais de 20 eleições. Nunca reclamaram de fraude.

E os discursos se repetem. Os de Bolsonaro nauseiam o País. Os dos “homens de bem” são mais do mesmo. Beco sem saída. Nada levando a lugar nenhum. Sem o feitiço do feioso Drauzio, Bolsonaro segue firme na falseta. Impostor e mentiroso, não se envergonha nunca. E a Vivi, gente? E o Barroso? E o Fux? Poxa, não dá para dizer que não avisamos.

 

Mirian Guaraciaba é jornalista 

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