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Um resumo da ópera política (por Antônio Carlos de Medeiros)

A História coloca Lula, outra vez, diante da busca de um match entre a Fortuna (contexto) e a Virtú (liderança)

atualizado 27/01/2023 1:43

Foto colorida mostra presidente Lula. Ele está com a mão na boca - Metrópoles Hugo Barreto/Metrópoles

Em apenas um mês, o tempo político acelerou-se e desconectou-se do calendário gregoriano. A aceleração já resultou na emergência do exercício da Política e da mediação política. A supremacia da Política e a diminuição da antipolítica do conflito e do caos da “Era Bolsonaro”- com a derrota da tentativa de golpe do 8 de janeiro.

A História coloca Lula, outra vez, diante da busca de um match entre a Fortuna (contexto) e a Virtú (liderança). A recuperação da Autoridade legitimada pela sociedade. Vem daí a opção preferencial (um imperativo de realidade) pela mediação política. Agora no limiar da nova legislatura do Congresso Nacional.

E daí? Daí que a política nacional, com o exercício da liderança de Lula, está em operação para desatar quatro nós górdios, para começo de conversa do novo mandato presidencial.

Primeiro nó: a questão militar:

É um processo centenário, como se sabe, pelo menos desde a linhagem do tenentismo de 1922, que precisa ser visto como o que é: linhagem positivista e processo político de interferência na política.

Assim, ao mesmo tempo, é preciso o rigor na punição de golpistas e ativistas do caos, sem a complacência de varrer para debaixo do tapete, e o exercício do diálogo e da pacificação. Recuperada a autoridade presidencial de Comandante Supremo, é necessário reinstalar a hierarquia e a disciplina.

As FFAA são instituições a serviço do Estado e, portanto, da Constituição. Temos, aí, um longo processo político de diálogo e um processo cultura de readaptação da formação das forças à geopolítica do Século XXI.

Segundo nó: a questão social & a questão fiscal:

É preciso evoluir da dicotomia para a antinomia. A antinomia de duas proposições/questões não significa dicotomia. Permite a busca da síntese, desde que superados os dogmas.

Lula tensiona o mercado financeiro para inserir na Agenda nacional a questão social e as desigualdades. São entraves ao próprio desenvolvimento do capitalismo no Brasil. É preciso buscar novo consenso sobre o regime fiscal, adequado ao novo momento sócio econômico do país e às mudanças na demografia. O Brasil é outro, a população mudou o perfil: mais idosos, mais pobres, mais mulheres no mercado de trabalho.

Novo contrato social requer nova visão da questão fiscal, sem dogmas economicistas.

Terceiro nó: a reconstrução das políticas públicas.

É preciso arregaçar as mangas e reconstruir as políticas públicas e a governança. Outra vez: é um processo. De revisão de programas e políticas; de inversão de prioridades; de reestruturação de gastos; de cancelamento de rubricas orçamentárias anacrônicas; e de reforma do RH.

Quarto nó: as dores do crescimento e da renda média.

É recorrente o desafio da superação dos vôos de galinha no processo de crescimento. Sem prosperidade não há democracia. A vitória das forças democráticas em 2022 precisa reconfirmar o axioma histórico de que a democracia plena gera mais desenvolvimento.

A reforma tributária (para impulsionar a produtividade) e o arcabouço fiscal estão na ordem do dia. Mas é preciso calibrar os investimentos públicos, com a reestruturação de gastos e o foco na infra-estrutura, na inovação e na reindustrialização – tudo permeado por parcerias público privadas e pela diminuição da financeirização do capitalismo contemporâneo.

Tudo somado, trata-se de reconquistar o poder de agenda do Presidente e da presidência da República, de olho na governança e na governabilidade. Lula sabe que o seu mandato popular tem baixa legitimidade. Daí a opção pela Frente Ampla.

Agora, vem aí a reabertura do Congresso. Na Política, agora é hora da vaca tossir. O busílis é o exercício da liderança presidencial, compartilhada com a Federação, o STF e o Congresso. O pilar da Federação é essencial para acelerar entregas. Chegou a hora do vamos ver.

O Congresso foi para a direita, “pero no mucho”. A direita, principalmente depois do 8 de janeiro e da ausência e silêncio de Jair Bolsonaro, enveredou por um labirinto. É hora da Frente Ampla política ser materializada como “frente de trabalho”, para construir maiorias estáveis no Congresso com pactuação com a sociedade (via “Conselhão” a ser implantado pelos ministros Alexandre Padilha e Márcio Macêdo).

Isolar os radicais e inocular a Política congressual com o “vírus” da mediação política. É possível. Dar um match entre a Fortuna e a Virtú…

 

*Pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science.

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