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Um peronista em Beijing (por Marcos Magalhães)

Argentina anunciou sua adesão ao programa Um Cinturão e uma Rota, a reedição da antiga Rota da Seda chinesa

atualizado 08/02/2022 1:31

Presidente da Argentina, Alberto Fernández Reprodução/Twitter

Ali estavam o presidente da Rússia, Vladimir Putin, e líderes de cinco ex-repúblicas soviéticas – Turcomenistão, Tajiquistão, Uzbequistão, Quirguistão e Cazaquistão. Essa grande comitiva oriental, acrescida de líderes do Egito e do Paquistão, prestigiou a inauguração dos Jogos Olímpicos de Inverno de Beijing, no dia 4.

O Estádio Nacional, que já recebera a abertura dos Jogos Olímpicos de Verão em 2008, acolheu também um visitante que voou 19 mil quilômetros para estar ali: o presidente da Argentina, Alberto Fernández. Ele e o presidente do Equador, Guillermo Lasso, foram os dois únicos representantes da América do Sul na abertura de um evento boicotado pelo Ocidente.

O plano de voo de Fernández foi meticulosamente planejado. Incluiu uma parada estratégica em Moscou, onde agradeceu a Putin pelo envio de vacinas contra a Covid 19 e criticou o Fundo Monetário Internacional. E teve o seu ponto alto dois dias depois da abertura dos Jogos e a 17 quilômetros de distância do estádio.

Foi no Grande Salão do Povo, no centro de Beijing, que Fernández reuniu-se com o presidente da China, Xi Jinping, para celebrar os 50 anos do estabelecimento de relações diplomáticas entre os dois países e para anunciar os ambiciosos próximos passos da cooperação bilateral.

No campo político, o governo argentino reconheceu o princípio de “Uma Única China”, segundo o qual a ilha de Taiwan não pode ser considerada um país independente, mas uma província rebelde. Por sua vez, o governo chinês manifestou apoio à reivindicação argentina pelas Ilhas Malvinas, atualmente dominadas pelo Reino Unido.

Mas as principais novidades foram no campo econômico. Os dois países assinaram acordos de cooperação agrícola e nuclear. Os chineses vão construir a quarta usina atômica em território argentino. Além disso, acertaram programas conjuntos de desenvolvimento sustentável, economia digital e desenvolvimento espacial.

A principal novidade veio na área de infraestrutura: a Argentina anunciou sua adesão ao programa Um Cinturão e uma Rota, a reedição da antiga Rota da Seda que está espalhando investimentos chineses pelo mundo. De acordo com anúncio do governo argentino, esperam-se investimentos de US$ 23 bilhões, dos quais US$ 14 bilhões em um primeiro momento.

Segundo a secretária de Relações Econômicas Internacionais, Cecilia Todesca Bocco, já existem 10 projetos identificados para receber os recursos. “Queremos investimentos chineses em setores como a energia e a eletro mobilidade”, anunciou a secretária.

Parceiros

A grande aproximação entre Buenos Aires e Beijing acontece em um momento delicado para o Brasil. Especialmente em se tratando de dois países especialmente importantes: a China é o primeiro parceiro comercial do Brasil, enquanto a Argentina ocupa a terceira posição.

Em 2021, o Brasil perdeu, exatamente para a China, o posto de maior exportador para a Argentina. Os chineses venderam a Buenos Aires US$ 13,5 bilhões e responderam por 21,4% das compras argentinas no ano passado, contra 14,3% apenas dez anos antes.

Há igualmente dez anos, o Brasil era o beneficiário de aproximadamente 30% das compras externas da Argentina. O percentual caiu para 19,6% no ano passado.

Outro fator preocupante é a mudança na balança comercial entre os dois principais sócios do Mercosul. Ainda em 2021, a Argentina conseguiu reverter uma longa tendência histórica – com exceção em 2019 – e obteve o primeiro superávit com o Brasil desde 2004: US$ 69 milhões.

A partir de 2004, o Brasil havia acumulado um superávit na relação comercial com o país vizinho de US$ 52,5 bilhões. A nova tendência foi celebrada em Buenos Aires, que espera ter grandes saldos comerciais com seu parceiro no Mercosul no futuro próximo.

Ainda neste ano o governo argentino pretende licitar a construção de um gasoduto entre as reservas de Vaca Muerta, na província de Neuquén, e a fronteira com o Brasil, de onde o gasoduto seguiria até Porto Alegre. Se tudo der certo, a Argentina vai ampliar em cerca de US$ 5 bilhões anuais suas exportações para o Brasil a partir da venda de gás.

Vaca Muerta tem atualmente 40% das reservas de gás de xisto da Argentina, além de 60% do petróleo não convencional do país. Para que essas riquezas potenciais se transformem em riquezas reais são necessários grandes investimentos em infraestrutura.

A Argentina não está nadando em dólares. Bem ao contrário, está tentando concluir uma negociação com o FMI, bastante criticada dentro da própria base governista. Por isso aposta na ampliação de vendas de gás a vizinhos como Brasil e Chile e vai buscar dinheiro para renovar a sua infraestrutura do outro lado do mundo.

Estratégica

Já se vai longe o tempo em que Brasília se orgulhava de sua “parceria estratégica” com Beijing. Desde a posse de Jair Bolsonaro, os dois países têm experimentado momentos muito delicados no relacionamento bilateral. E nada indica que a situação melhore ainda neste mandato.

O governo brasileiro evitou o pior ao encontrar solução alternativa para o impasse em torno da implantação da quinta geração de telefonia celular, na qual os chineses são especialmente avançados. Em vez de proibir a participação da empresa Huawei, como insistia Washington, Brasília optou por dividir a licitação e excluir os chineses apenas de uma nova rede oficial de 5G.

A solução improvisada, porém, manteve o relacionamento na mesma temperatura quase gelada em que se encontra há três anos. Ao contrário, Alberto Fernández arriscou-se no gelado inverno da China não apenas para a abertura dos Jogos Olímpicos e o encontro com Xi Jinping, mas também para visitar a própria empresa chinesa de telecomunicações.

O presidente da Argentina esteve no Centro Tecnológico da Huawei e conversou com a direção da companhia sobre projetos nas áreas de redes inteligentes, mobilidade e transição energética. Nas relações internacionais, gestos contam.

A Argentina foi o primeiro dos maiores países da América Latina a aderir à nova Rota da Seda. México e Brasil continuam fora. Atraiu também investimentos chineses para áreas sensíveis como a energia nuclear.

Agora parece disposta a gestos políticos igualmente ambiciosos. Fernández pediu a Xi Jinping que apoie o ingresso de seu país no Brics, atualmente composto por Brasil, Rússia, Índia e África do Sul, além da própria China.

O pedido foi recebido com simpatia. E a conversa com Xi foi amistosa. O presidente argentino fez um entusiasmado relato ao colega chinês dos esforços de seu peronismo em industrializar a Argentina. E conquistou uma gargalhada de Xi ao dizer a ele que, “se fosse argentino, seria peronista”.

Dois, de nossos três maiores parceiros econômicos, parecem estar em lua de mel.

 

Marcos Magalhães escreve no Capital Político. Jornalista especializado em temas globais, com mestrado em Relações Internacionais pela Universidade de Southampton (Inglaterra), apresentou na TV Senado o programa Cidadania Mundo. Iniciou a carreira em 1982, como repórter da revista Veja para a região amazônica. Em Brasília, a partir de 1985, trabalhou nas sucursais de Jornal do Brasil, IstoÉ, Gazeta Mercantil, Manchete e Estado de S. Paulo, antes de ingressar na Comunicação Social do Senado, onde permaneceu até o fim de 2018.

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