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Tiros na floresta (por Marcos Magalhães)

Izkia tornou-se ministra do Interior e da Segurança Pública. E, logo na primeira semana do novo governo, foi testada pela realidade chilena

atualizado 22/03/2022 4:28

Chile elege presidente Reprodução

Dois dias depois do primeiro turno das eleições presidenciais no Chile, a médica Izkia Siches, de 35 anos, recebeu um convite inesperado. O igualmente jovem candidato de esquerda, Gabriel Boric, pediu a ela para se tornar chefe da campanha de segundo turno contra o candidato da extrema direita, José Antonio Kast.

Ela havia conquistado projeção nacional a partir de março de 2020, quando, como presidente do Colegio de Médicos, tinha alertado a população por todos os meios de comunicação para os riscos da pandemia que chegava ao país.

Quando ainda havia menos de 200 casos de Covid, Izkia pediu ao então presidente Sebastián Piñera que promovesse uma quarentena para evitar a propagação do vírus. Parecia pregar no deserto. Mas os fatos lhe deram razão, e ela se tornou a mulher mais popular do Chile.

Ao receber o convite de Boric, ela pareceu exibir a mesma coragem. Aceitou a tarefa, tomou no colo sua filha recém-nascida e percorreu todo o Chile. Com seu jeito simples e a popularidade adquirida durante a pandemia, ela ajudou o atual presidente a ganhar as eleições.

Izkia tornou-se ministra do Interior e da Segurança Pública. E, logo na primeira semana do novo governo, foi testada pela realidade chilena. Em viagem à conflagrada região da Araucanía, no sul do país, sua comitiva foi recebida com tiros para o ar. Tiros de advertência.

Pelo caminho havia barricadas e mensagens de amedrontamento. A região, afetada por conflitos entre o Estado chileno e os povos mapuches, tem sido palco de crimes como o tráfico de madeira e o narcotráfico. A ministra recuou, mas prometeu buscar o diálogo.

“Sempre soubemos que esse trabalho não seria fácil”, disse Izkia, que recebeu de assessores informações sobre reivindicações de liberação de assim chamados presos políticos mapuches. “Essa região sofre o problema do abandono, mas seguiremos em busca do diálogo e do reencontro”.

Armas

Os tiros ouvidos na floresta do sul do Chile ilustram o que pode vir a acontecer quatro mil quilômetros ao norte, na Amazônia brasileira, a partir do ano que vem. Ao longo dos últimos quatro anos, cresceram ali o garimpo clandestino e a exploração ilegal de madeira.

Muitas dessas atividades ocorreram em reservas indígenas. Frequentemente acompanhadas da intimidação das populações nativas, com armas obtidas por garimpeiros e madeireiros muito mais facilmente do que antes da posse de Jair Bolsonaro.

Se o presidente não obtiver a reeleição, como indicam as atuais pesquisas eleitorais, os agentes de atividades econômicas predatórias na Amazônia poderão se sentir desprotegidos. E reagir a forças de um novo governo empenhado em levar a lei de volta à floresta.

A tarefa desse novo governo não será fácil, como também não será a da jovem ministra chilena, em uma região remota onde até as forças policiais têm dificuldade em entrar. Aqui no Brasil, com a agravante do esvaziamento de órgãos ambientais promovido pela atual gestão.

No momento em que o Brasil se vê duramente criticado pela comunidade internacional pelo aumento da devastação da Amazônia, a primeira tarefa de uma nova gestão será a de reconstruir os órgãos de Estado. Mas será realmente apenas o primeiro passo.

Floresta

Há pelo menos quarenta anos crescem na região Norte atividades econômicas ilegais e danosas ao meio ambiente, frequentemente em locais onde não deveriam estar, como reservas indígenas. E o atual governo quer urgência na votação de projeto que regulamenta a mineração justamente em terras indígenas.

Do lado formal da economia, os principais empregos estão nas cidades. Os jovens da Amazônia conseguem trabalho na área de serviços, especialmente no comércio.

Para reduzir os danos causados por atividades como o garimpo clandestino e a exploração ilegal de madeira, será necessária maior presença do Estado. Inicialmente na repressão a essas atividades, mas em seguida com foco na transformação da economia regional.

A diminuição da força das atividades ilegais e a atração de habitantes locais para novos tipos de trabalho exigirão a criação de um modelo inédito de desenvolvimento. Esse modelo precisará de apoio de um futuro governo. Mas já estão em andamento algumas iniciativas promissoras.

É o caso do projeto Amazônia 4.0, destinado a gerar valor a comunidades locais por meio de produtos e serviços sustentáveis. É uma iniciativa conjunta do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da Universidade de São Paulo e do Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), com financiamento do Instituto Arapyaú.

Em recente debate promovido pelo Observatório de Comércio e Ambiente na Amazônia (Ocaa), o climatologista Carlos Nobre, um dos idealizadores do projeto, afirmou que o grande potencial da Amazônia está na agregação de valor a seus produtos florestais.

O primeiro projeto já está em andamento. Foram obtidos recursos para a construção de um moderno centro de processamento de cupuaçu e cacau. Paralelamente, quatro comunidades vão receber capacitação para trabalhar em biofábricas desenhadas para uma “bioeconomia circular”, onde os resíduos são reciclados.

“Queremos atrair jovens eco empreendedores para essa bioeconomia”, disse Nobre.

Também estão previstas no projeto iniciativas como as de criação de uma escola de negócios sustentáveis na região e o estabelecimento de um Instituto de Estudos da Amazônia – “avançadíssimo, como um Ita”, comparou o cientista, referindo-se ao Instituto de Tecnologia da Aeronáutica, que permitiu o sucesso da indústria brasileira de aviões.

Segundo Nobre, a adoção de sistemas agroflorestais como os de produção de cacau rendem cinco vezes mais do que a pecuária e duas vezes mais do que a soja.

São bons argumentos para o futuro da Amazônia. Para colocá-los em prática serão necessárias coragem e determinação semelhantes às da jovem médica chilena.

 

 

Marcos Magalhães é jornalista especializado em temas globais, com mestrado em Relações Internacionais pela Universidade de Southampton (Inglaterra), apresentou na TV Senado o programa Cidadania Mundo. Iniciou a carreira em 1982, como repórter da revista Veja para a região amazônica. Em Brasília, a partir de 1985, trabalhou nas sucursais de Jornal do Brasil, IstoÉ, Gazeta Mercantil, Manchete e Estado de S. Paulo, antes de ingressar na Comunicação Social do Senado, onde permaneceu até o fim de 2018.

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