Temores de setembro (por (por Gustavo Krause)

Em 2021, o Sete de Setembro representou o fio da navalha que pairou sobre o cidadão brasileiro. Como seria o dia seguinte?

atualizado 03/10/2021 4:27

O Presidente Bolsonaro apropriou-se da data da Independência do Brasil para levar às ruas apoiadores e assemelhados; dar uma demonstração de força política; emparedar as Instituições; proteger-se e, no limite, jogar “fora das quatro linhas”.
No dia seguinte, uma carta psicografada gerou um “democrata” em meio a mil dias de tensões e desassossego.

Nono mês do calendário Gregoriano e o sétimo (Septem) do calendário Romano. Inicia o outono no hemisfério norte e a primavera no hemisfério sul.

Nada de excepcional, até que alguns eventos marcaram o mês de setembro. Dos sangrentos conflitos entre a OLP e o exército da Jordânia emergiu a organização terrorista (16/9/1970), Setembro Negro, que, em covarde investida contra equipe israelense na Jogos Olímpicos de Munique/1972, deixou como rastro o frio assassinato de 11 reféns.

O 11 de setembro de 2001 é uma tragédia inapagável da memória da humanidade. O medo remanescerá para sempre e a arma do terrorismo, imprevisível e cruel, estará sempre pronta para obedecer à loucura dos fanáticos.

No Brasil, setembro nos remete, rotineiramente, ao portal do ano que vem chegando. Mas não permitiu que passasse em branco o Sete de Setembro de 1822, episódio que bem, ou mal contado, está definitivamente inscrito na nossa História como a data da Independência.

Pois bem, a data foi apropriada pelo Presidente para colocar apoiadores e assemelhados na rua; dar uma demonstração de força política; emparedar as Instituições; proteger-se e, no limite, jogar “fora das quatro linhas”. Foi explícito quando, em São Paulo, deitou falação.

Palavras ao vento vão e voltam. A polarização “nós e eles” não começou agora; tem raízes na hegemonia lulopetista e, uma vez dominante, é quem manda, sem essa de aliança, tampouco, participar de qualquer movimento, iniciativa ou projeto que busque um mínimo denominador comum para aperfeiçoar nossa disfuncional democracia.

Em 2021, o Sete de Setembro representou o fio da navalha que pairou sobre o cidadão brasileiro. Como seria o dia seguinte? Uma carta de outro punho e, quem sabe, se outros punhos não impediram o avanço autoritário. Disse, não disse, nasceu um “democrata”.

São mil dias de tensões e desassossego. Basta olhar em torno: estamos no mundo convulsionado, instável, incompreensível e, mais grave, desinteressado em qualquer tipo de compreensão. Só o barulho cresce, enquanto a vaidade e a estupidez, celebram o parentesco e colocam a brutalidade em ação.

Setembro, antes de terminar, nos submeteu a outros tremores vindos da ONU: o discurso do Presidente exonerou o Itamaraty no que ele faz de melhor e conseguiu a proeza de descrever uma realidade paralela.

O mais expressivo dos tremores foi a representação da “elite”, em refinado e divertido jantar, frente a frente a “homens comuns”, demagogicamente, devorando pizzas nas calçadas novaiorquinas. Unidas e patéticas.

Gustavo Krause foi ministro da Fazenda

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