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Sobre a convivência democrática (por José Almino)

Nunca vi meu pai pronunciar a palavra “inimigo” em política. Dizia sempre: adversário

atualizado 07/08/2022 20:33

Congresso Nacional em brasília DF com o céu com núvem Rafaela Felicciano/Metrópoles

Quando eu era menino – deveria ter uns dez anos, porque me preparava para o exame de “admissão” no Colégio Estadual de Pernambuco –, meu pai era deputado estadual. E como estudava à tarde, costumava passar pela Assembléia Legislativa depois das aulas, quando os deputados estavam reunidos em sessão. Ficava sentado nas pequenas galerias laterais, esperando a carona paterna.

Era a década de 1950, segunda metade do governo do general Cordeiro de Farias e ele, meu pai, fazia parte de um minúsculo (acho que não chegava à meia dúzia) grupo de deputados de oposição. Na eleição de 1954, o PSD juntara-se com uma parte grande da UDN em torno da candidatura do general, de maneira que não sobrara para quase mais ninguém.

Como eu vinha dizendo, eu era menino. Mas, seguia com imensa curiosidade aquele espetáculo, coordenado por um presidente plantado em uma bancada mais alta, que “concedia” a palavra ao “nobre deputado”, estabelecia o tempo da fala, ditava as regras de uma dramaturgia e uma coreografia conhecida por todos os atores. Estes se davam mutuamente “Vossas Excelências” estropiavam freqüentemente a sintaxe, o vocabulário e as concordâncias; o que, aliás, não me chocava particularmente.

Fascinava-me – a atração era intuitiva, decifrada agora – estar testemunhando uma cerimônia fora e acima do comum, tão importante que obrigava homens, por vezes rudes e rústicos, a se aterem àquelas normas de respeito mútuo, embora eu tivesse conhecimento (não fora eu filho de deputado) dos conflitos e disputas entre eles; de episódios sangrentos e primitivos da política e mesmo de incidentes violentos nas próprias Assembléias. Mas, nem por isso, aqueles salamaleques, aquele “faz de conta” deixavam de ser coisa séria aos meus olhos. E para tal, se havia construído um edifício imponente, onde adultos de paletó e gravata (inclusive meu pai) aceitavam se comportar daquela maneira.

Obviamente eu não teria a ciência para seguir debates sobre reforma tributária (houve um desses, durante aquele governo), mas assisti espantado o fim de um discurso de Clodomir Moraes, um deputado de esquerda, que durara várias horas. Meu pai se divertia com aquilo. Dizia à volta que Clodomir fizera um histórico da tributação desde o Código de Hammurabi. Discurso, pelo que eu pude perceber do que meu pai falava absolutamente fantasioso.

Foi aí que ele me explicou o que era uma “obstrução parlamentar”. E então, senhores e senhoras, eu achei aquilo de uma elegância impar, de um chique incomparável. A maioria sendo obrigada a aceitar que alguém fizesse de cara limpa uma palhaçada daquela.

Igualmente não tardei a observar que muitos, na verdade quase todos os deputados andavam armados. Impossível não ver os revolveres por baixo dos paletós desabotoados que se abriam sobre as cartucheiras. Meu pai sequer tinha um revolver em casa.

Um dia preocupado, perguntei por que não seguia aquela regra que parecia aceita por toda gente. Ele riu: – Por que você acha que eu preciso de revolver? E eu: – Mas, não é perigoso andar desarmado? – Eles todos sabem que eu ando desarmado, foi o que me respondeu. De imediato, eu entendi a graça do paradoxo, a astúcia do mais fraco que é capaz de utilizar valores que lhes são alheios, em seu favor: afinal, a honra sertaneja proibia atirar em alguém desarmado.

Porém, o meu pai não tratava aqueles homens com condescendência ou superioridade. Na verdade, era como se mantivesse uma postura moral (também muito chique) que o fazia capaz de conviver com os colegas, sem partilhar daquilo que julgava inaceitável.

Talvez, por isso, nunca o vi pronunciar a palavra “inimigo” em política. Dizia sempre: adversário. Palavra que, à época, tinha para mim uma conotação, aí sim, não muito elegante de locução esportiva.

José Almino de Alencar, sociólogo e escritor

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