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Salvem os brancos (por Cristovam Buarque)

A última trincheira da escravidão está na desigualdade da qualidade escolar, conforme a renda da criança

atualizado 12/08/2022 23:54

Homem negro é vítima de racismo em sua hamburgueria Arquivo Pessoal

Nas primeiras décadas do século XX, os brasileiros negros eram impedidos de jogar futebol nos clubes oficiais. Se esta posição racista se mantivesse, dificilmente teríamos sido campeões mundiais em 1958, nem depois. Quase todos nossos melhores jogadores são afrodescendentes. Pelas regras racistas, estariam impedidos de jogar. O racismo é não apenas indecente, ele é estúpido. Precisamos por isto ajudar os brancos racistas ou minimamente preconceituosos a perceberem a estupidez e a indecência de imaginarem qualquer superioridade decorrente de raça, ajudá-los a ver as vantagens de medidas que ajudam a quebrar preconceitos.

Um país com preconceitos contra alguns de seus cidadãos ou cidadãs é um país que não aproveita todo potencial de sua população. Individualmente, o preconceito corrói o preconceituoso, tanto na sua inteligência quanto na sua espiritualidade. A sensação de superioridade pela cor é uma ferrugem mental e espiritual. Por isto, precisamos ajudar aos brancos a superarem seus preconceitos, também a alguns negros que reagem ao preconceito que sofrem, adquirindo a ferrugem do preconceito contra as outras raças.

A última trincheira da escravidão está na desigualdade da qualidade escolar, conforme a renda da criança. É nesta escola desigual que a cada dia renasce o preconceito e daí o racismo, porque os pobres, excluídos das escolas de qualidade, são na maioria afrodescendentes. A desigualdade social na educação de base é também racial, porque a pobreza é negra. Em consequência, o ensino superior atende a brancos, a elite intelectual é branca, e o preconceito se reacende. Os brancos precisam ser ajudados a entender que as cotas para negros beneficia ao país. O Brasil inteiro se beneficia quando um jovem negro entra na universidade e ajuda a quebrar o preconceito, ao mudar a cor da cara da elite do país. As cotas no Instituto Rio Branco permitem mudar a cor da cara de nossos representantes no exterior, melhorando a imagem do Brasil, ao quebrar a visão de que somos um país que, por preconceito, exclui sua população afrodescendente. Brancos e negros precisam entender que o racismo e o preconceito são contra o país e não apenas contra pessoas.

O Brasil teve quase 4/5 de sua história sob regime escravocrata contra negros, o racismo e o preconceito ficaram arraigados na alma brasileira que continua escravista, apenas substituindo os negros pelos pobres, descendentes sociais da senzala. Os brancos precisam ser ajudados a ver as desvantagens do racismo para o Brasil inteiro, e a perceberem que a quebra do preconceito requer quebrar a desigualdade na qualidade escolar. A população negra precisa perceber que, apesar de seus benefícios, não bastam cotas para o ensino superior, se o país continuar replicando o analfabetismo dos pobres, quase todos negros. Embora reduzido, o preconceito continuará se o Brasil tiver mais alguns médicos negros e mantiver multidões de analfabetos também negros. O Brasil precisa ser ajudado a descobrir que o berço de um país sem racismo será um sistema escolar único, sem desigualdade na qualidade.

 

Cristovam Buarque foi ministro, senador e governador

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