Retratos de uma era indecorosa

Tipos desqualificados que o azar colocou no poder não dão a menor importância para o sofrimento dos brasileiros

atualizado 20/10/2021 4:37

Eduardo Bolsonaro e família posam em viagem a Dubai Redes sociais/Reprodução

Editorial de O Estado de S. Paulo (20/10/2021)

Nem todos podem se queixar da qualidade de vida que o governo Bolsonaro proporciona. Apesar da crise social e econômica que atinge o País, há quem esteja desfrutando de vida mansa, confortável e aprazível, em contraste com a labuta e as preocupações diárias da maioria da população. O presidente Jair Bolsonaro cuida bem dos seus.

Eduardo Pazuello, antigo ministro da Saúde, é um dos agraciados. Como revelou o Estado, o militar completou quatro meses em cargos de confiança ligados à Presidência da República com uma agenda esvaziada e funções obscuras. Não se sabe ao certo o que faz Eduardo Pazuello na Secretaria Especial de Assuntos Estratégicos, tampouco a frequência com que vai ao trabalho. Por meio da Lei de Acesso à Informação, o jornal pediu o registro de entrada do general na sede do Executivo, mas a solicitação foi negada. A informação seria sigilosa.

Sabe-se, isso sim, o que Eduardo Pazuello ganha no Palácio do Planalto. Com carga horária de 40 horas semanais, o salário mensal é de R$ 10.166,94. Em razão de seus proventos como general de divisão do Exército (R$ 32.375,16), o intendente recebe mensalmente o valor do atual teto da administração federal: R$ 39.293,32.

É essa a vida atual daquele que assumiu a chefia do Ministério da Saúde quando o País tinha 14,8 mil mortes por covid e, na sua demissão, em março deste ano, eram quase 300 mil mortes. “Um brilhante trabalho”, disse Jair Bolsonaro a respeito da gestão Pazuello. Não se sabe se o elogio do presidente incluía as suspeitas de corrupção no período, investigadas agora pela CPI da Covid, mas uma coisa é certa: Eduardo Pazuello não merece prêmio algum por sua irresponsável gestão no Ministério da Saúde.

Fabrício Queiroz é outro bolsonarista que vem ostentando vida aprazível. Pelas publicações nas redes sociais, o amigo de longa data da família Bolsonaro não parece preocupado com as denúncias de peculato e lavagem de dinheiro. Beneficiado por decisão judicial que levantou a ordem de prisão contra ele, o ex-assessor de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio tem aparecido em manifestações bolsonaristas, festas, churrascos e aniversários.

O entorno bolsonarista é realmente um mundo peculiar. Em junho de 2020, quando teve sua prisão preventiva decretada, Fabrício Queiroz foi encontrado pela polícia numa casa do advogado Frederick Wassef, que havia registrado o local como escritório. Aquele apontado pelo Ministério Público como o “operador financeiro (…) na divisão de tarefas da organização criminosa” estava escondido justamente numa casa do advogado da família Bolsonaro. No entanto, nada disso parece agora merecer qualquer recato.

Também destoa do senso comum, especialmente pelas atuais circunstâncias do País, a viagem da comitiva do governo brasileiro a Dubai, para visitar a Exposição Universal. São nada menos que 69 brasileiros que vão participar do evento. Segundo o jornal O Globo, a viagem já custou aos cofres públicos mais de R$ 1,17 milhão.

Até o momento, não se sabe o que vai render ao Brasil a viagem de toda essa turma bancada pelo dinheiro do contribuinte. O que se viu até aqui não é muito animador. O vídeo do secretário especial de Aquicultura e Pesca, Jorge Seif, divertindo-se numa praia de Dubai mais parece uma viagem de turismo e de descanso do que uma atividade de trabalho.

Tudo somado, fica claro o padrão bolsonarista de escárnio. Tipos desqualificados que o azar colocou no poder não dão a menor importância para o sofrimento dos brasileiros, às voltas com inflação, doença, desemprego e fome. Sejam os que zombam da Justiça, como Queiroz e seus amigos do peito, sejam os incompetentes cujo dolce far niente é bancado com dinheiro público, como Pazuello e alguns dos sortudos integrantes da comitiva brasileira em Dubai, são todos expressão da tragédia moral que Bolsonaro protagoniza. Nesse sentido, a imagem de Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, fantasiado de xeque em Dubai é o retrato fiel dessa era indecorosa.