Quem vai impulsionar energia social? (por Antônio Carlos de Medeiros)

Inflação de alimentos, de energia, de fretes. Uma realidade econômica a ser pilotada com novo pensamento econômico

atualizado 15/10/2021 11:32

Rafaela Felicciano/Metrópoles

As candidaturas presidenciais estão na estrada. Algumas delas ainda em processo de decantação até o início de 2022. O desafio colocado para todos – candidatos e sociedade civil – é o de impulsionar energia social e forjar um novo consenso político no Brasil. Superar o quadro de polarização que divide o país e que aprofunda o quadro de regressão civilizatória, estagnação econômica, miséria, fome e pobreza. Quem vai, e como vai, ser capaz de articulação de novo consenso? Este é o nome do jogo.

A iminência de estagflação em 2022 acendeu um alerta. A combinação de aumento de preços e queda no crescimento (estagflação) está de volta ao debate econômico e político. A porta de saída requer ajustes no pensamento econômico e no contrato social da sociedade, para lidar com as sequelas estruturais que a pandemia está deixando e que se superpõem a mudanças que já estavam em curso. O Brasil não cresce há sete anos. Temos 70 milhões de miseráveis e 100 milhões de pobres. 55% dos brasileiros padecem de insegurança alimentar. O processo de favelização aumentou muito, passando para 13.151 favelas em 734 cidades.

As mudanças e sequelas tornam urgente a busca de novo consenso, aqui e no mundo desenvolvido. Quanto ao pensamento econômico, os novos desafios vão além de Keynes e Friedman. Surge uma terceira ênfase, a dos economistas heterodoxos do “afrouxamento quantitativo e do Green New Deal. Os atuais desafios são mais complexos. Exigirão reequilíbrio das políticas fiscais e monetária, para olhar tanto para a população quanto para a economia. “O apoio fiscal tem de ser generoso, onde for necessário, e o aperto, cauteloso”, defende Martin Wolf.

O Brasil precisa reestruturar gastos e pactuar nova política de investimentos públicos e privados. Na essência, a emergência de novos problemas, novos conflitos e novas pressões sociais ampliaram os eixos de clivagens. Às tradicionais clivagens sociais e regionais somaram-se clivagens identitárias, culturais e religiosas. Agora, além da questão fiscal, são cruciais as questões das desigualdades, das mudanças climáticas, da pobreza e da saúde. Requerem investimentos públicos.

A recuperação de 2021 está perdendo fôlego. Estagflação a vista. Também fomos atingidos por choque de oferta com repressão de demanda. Inflação de alimentos, de energia, de fretes. Uma realidade econômica a ser pilotada com novo pensamento econômico, ainda em processo de experimentação. Seria um mix de Keynes, Friedman e heterodoxia?

É preciso lidar com mudanças de clivagens e mudanças demográficas (de raças, gêneros e gerações). E, aí, vem o entrelaçamento do consenso econômico com o consenso político. A economia política de uma Nova Agenda. Nos anos FHC e Lula, o Brasil construiu um raro consenso na política e na economia. Ambos governaram com a formação de coalizões e ambos praticaram políticas de estabilidade econômica e reformas institucionais. Promoveram crescimento com inclusão social e democracia. Agora, teremos energia social para forjar novo consenso?

 

 

Antônio Carlos de Medeiros é pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science.