Quem elege os jabutis (Por Felipe Sampaio)

Democracia não se esgota no ato de votar

atualizado 06/12/2021 2:57

Urna eletrônica do TSE Hugo Barreto/Metrópoles

Misturar bicho com política é coisa para especialistas, sejam sociólogos ou veterinários. O assunto já foi mais bem retratado em obras como A Revolução dos Bichos, ou mesmo A Fuga das Galinhas.

No entanto, podemos comentar um aspecto ligado às eleições no Brasil. Assim como os jabutis, os candidatos não sobem sozinhos. Alguém os bota lá. Na democracia, o povo elege seus representantes. Opa! Mas, será mesmo?

A essa altura da nossa caminhada republicana não seria absurdo diferenciar quem vota de quem elege seus representantes. É verdade que o povo vota, mas será que seus representantes são os eleitos? E os eleitos, a quem representam? Dito de outra forma, apesar de o povo votar, quem, de fato, elege representantes?

Nesse caso, seria preciso fazer também uma distinção entre votar e eleger. O eleitor, por definição, é o portador de título eleitoral, vai à urna e vota. Mas, quem elege não é apenas quem vota, mas também – e principalmente-, quem patrocina o candidato.  Nesse ponto, a nossa democracia fica pelo meio do caminho.

Democracia não se esgota no ato de votar. Tem a ver com o que acontece em seguida. Nos rincões sobrevive a figura do curral eleitoral. O eleitor vai votar, tutelado por poderosos do lugar, que de fato elegem quem lhes interessa, usando o voto de cabresto.

Organizações ilegais urbanas também usam desse expediente ‘democrático’. As redes sociais, por sua vez, proporcionam ambiente para currais mais sutis.

O intrigante é que esses mesmos candidatos, escolhidos para presidirem orçamentos bilionários de cidades, estados e países, dificilmente seriam contratados por seus próprios padrinhos políticos para tomar conta sequer de uma barraca de frutas. Por que são selecionados, então, para dirigirem negócios públicos?

Vejam as exigências que uma pessoa enfrenta para uma vaga de gerente de padaria. Não se exige, por exemplo, que tenha mais de 30 anos, mas é necessário currículo, experiência, referências profissionais e pessoais, entrevistas etc.

Por outro lado, em eleições, o candidato que usar palavras como ‘liberal’, ‘enxugamento’, ‘reforma’ ou ‘subsídio’, é elegível por qualquer agente importante do mercado. O cidadão comum vai lá e vota nesse mesmo candidato, que lhe prometeu emprego, segurança, saúde e meio ambiente, sem perceber que será improvável a coexistência entre essas promessas e as anteriores.

Para piorar, depois de eleito, o jabuti toma posse dos dois feitiços mais poderosos já inventados pela humanidade – a caneta e o carro oficial. Não tem quem largue esses, que são os verdadeiros símbolos oficiais da República (esqueça aquela história de bandeira, hino e brasões que vimos na escola).

Quando isso acontece, quem botou o jabuti na árvore (na ilusão do proveito próprio) não sabe mais o que fazer. Finge que não viu que ele está ali e evita o vexame de tentar descê-lo. Muitas vezes os jabutis, que não são bobos, acomodam-se em galhos próximos a vespeiros, dando a impressão de que agora são capazes de comandar marimbondos.

Se os seus eleitos não são capazes de governar, os segmentos que os elegem, por sua vez, deveriam ser capazes de compreender que o Estado é um bem público, para o povo. Isso é democracia. Pressupõe eleger governantes capazes de dirigir o desenvolvimento humano, social e econômico da Nação, de modo sustentável. Apadrinhar jabutis é uma confissão de atraso.

Felipe Sampaio é co-fundador e colaborador do Centro Soberania e Clima (CSC); https://capitalpolitico.com/